Sou Maria Aparecida Nunes Barbosa da etnia Xacriabá. Moro na aldeia Barra do Sumaré II, município São João das Missões, Minas Gerais. Sou professora há 15 anos na minha aldeia. Sou estudante universitária da UFMG.

Há 3 anos que faço pesquisa sobre conflitos e sobrevivência do povo Xacriabá e municípios vizinhos, antes dos anos 1970.

Pensei em criar esse blog para divulgar meu trabalho e de outros colegas e dar oportunidade para outras pessoas conhecerem um pouco sobre as histórias do nosso povo, que a maior parte está só na mente dos mais velhos que eles estão levando com eles.

terça-feira, 12 de abril de 2011

ENTREVISTA D. GUARDINA GOMES DE OLIVEIRA


ENTREVISTA D. GUARDINA GOMES DE OLIVEIRA
Idade: 56 anos
Aldeia: Barra do Sumaré



Antigamente a gente comia era comida de milho, a gente pesava no pelação, fazia angu, farinha, beiju, bolo... Essa era a nossa comida de primeiro. A comida era canjica graúda, que nós, de primeiro, que nós chamava de canjicona, agora é canjica graúda que os povos trata, que a canjica miúda que pisava o milho, tirava a canjica para comer, esse que era o arroz que nós achava, nem conhecia o arroz.
Quando tinha o feijão comia, quando não tinha, a gente comia o beiju, cuscuz, comia o que o povo tratava de Mané, mane era o bolo.
A roupa, a finada mãe, no tempo dela, tecia, ela fiava na roda e tecia o pano. Aí os fio ia vestir. O que hoje o povo faz de pano, antes era de linho a blusa que ela fazia pra vestir. Nós caía dentro dos vestidão, saía rastando pra festa, o sapato era o pé no chão. O sapato que nós achava era cinco dedo no chão, todo mundo conhecia os rastros dos outros, só por rastro conhecia.
A cama era de vara, cortava as varas e botava os ganchos de um lado e de outro, aí era a caminha. A esteira, fazia de palha de banana. Hoje ninguém conhece isso mais, não é? Fazia de palha de banana pra dormir. Quem tivesse a coberta que tá que tecia embrulhava, quem não tivesse tinha vez que jogava aqueles pano em riba, a mãe tirava a saia, não dava pra tudo. Os outros embrulhava era com os paninhos pr’ali e cortava assim mesmo.
O sabão, ninguém nem conhecia sabão de comércio. Cortava os paus, fazia a cinza, botava fogo e ia lá no mato pegar pinhão, tingui, e fazia o sabão na panela. Fazia a estiladeira, ressava a cinza e fazia o sabão pra lavar roupa. Esse que era o sabão de nóis de primeiro, que era desse jeito.
Num tinha médico, então quando a pessoa doecia, saía caçando pau nos matos, rancando raiz daquelas árvore que dava pra gente ver que as pessoa melhorava, passava a febre, passava a dor, aí se a gente via que não tinha jeito, aí não tinha médico, Deus levava. Assim que era.
Eu mesma tive 19 fi’i. No tempo, eu tive 16 e mais 3 fora do tempo. Por quê? Porque num tinha médico mó de cuidá, eu ia era nos raizeiros, dava um remedinho, uma hora miorava, outra hora não miorava. Deus repartiu, eu fiquei com oito, ele levou oito, o que eu ia de fazer?

  • PARA COMPRAR AS COISAS, COMPRAVA FORA, OU ERA AQUI MESMO?
Comprava aqui mesmo, porque nem ninguém sabia onde era o comércio. Compra aquele mais recursadinho que morava aqui na mata, nós comprava na mão do finado Vicente, que morava aí no Sapé, nós comprava trabalhando, o homem faltava morrer de trabalhar, chovendo ou sem chover, era trabalho. Tinha vez que trabalhava a mó de trazer na mão um pratinho de coisa, um quilin na mão, assim um dia de serviço, tinha vez que trazia um pratinho de farinha, uma banda de rapadura, uma rapadura num dia de serviço! Os filho tinha vez que tava tudo aí com fome. Tinha vez que meus filho, quando não tinha milho pra quebrar o jejum, ficava aí, “Mãe dá um taquim de beiju! Cadê o beiju?!” “Pois se não tem mio, seu pai está trabalhando ainda, vai chegar de noite”. Quando o pai chegava dava graças a Deus mó de trazer ao meno a rapadura pra botar na mão dos fios, cada um, um pedacim de rapadura pra comer chorando, a barriga só a casquinha. Eu digo que hoje o povo tá tudo de barriga cheia: “eu não quero, não tem molho por riba, não tem carne” eu fico assim, assuntano. Tinha vez que dava de mamá criança, o peito estava seco, jogava o peito parecia que estava puxando o coração da gente, não tinha leite, aquela ança que dava na gente. De premero era um sofrimento. Hoje está bom, os povo acha que tá ruim. E tem gente que, a gente olha assim, ave Maria, é uma pança, a gente mesmo está vendo como era e como ficou. De premeira era coisa viu!

  • COMO COMEÇOU OS BRANCOS AQUI DENTRO?
Começou porque nós era os índios e o governador era o finado Rodrigues, ele foi abatendo, abatendo e foi tomando conta devagar até tá dando pra entrar aqui dentro da área, mas o pedido dele foi para não deixar entrar, mas tem o dizer que o governador, Deus levou, e ficou mais fraco.
Os premeiro fazendeiro, o premerinho, foi Juca Martinzão. Foi o premeiro. Juca comprou o terreno ali dos lado dos Sales e vendeu assim de lá daquela gratona lá ó! Certo no brejinho pra cá. E não podia porque aí era o nosso terreno. Aí quem combateu foi o finado Rodrigue e compadre João também combateu, aí deu briga e deu morte. Eles pegou e jogou um tanto de gado e foi rebentando tudo o que a gente tinha, e aí depois Iaiá ajudou, Iaiá a onça, a Iaiá Cabocla nossa. Ela deu uma sangrada num bocado aí, bebeu o sangue e largou só um montão de folha. Matou um bocado, eles assobiou ô e saiu e cascou debaixo, saiu de repente, pegou o gado e saiu tudo, porque aqui, se a pessoa não souber, ela acontece mesmo é! E depois aí foi virando essa briga entre os povos, uns entraram e acompanharam, outros não acompanharam. Depois acabou dessa forma. Os posseiros eram os mais ricos e os remanescentes eram os mais pobres.

  • A SENHORA SEMPRE MOROU AQUI? E OS SEUS PAIS?
Só aqui. Eu mudo de lugar na mesma aldeia. Nunca mudei de aldeia não. Meus pais são da mesma aldeia. A mãe de mãe foi pegada de cachorro, acho que morava no rumo de Riachão, aí eles vieram pra cá. A vó dela pegou no mato de cachorro, disse que botou no cavalo, que ela rasgou assim na garupa do cavalo, rancou um tampo, só o osso, era índia braba.

  • E AS ROÇAS, COMO ERA O JEITO DE PLANTAR E POR AS ROÇAS?
Antigamente era de madeira, punhava as roça com a mesma madeira, cercava pra plantar, ia derrubando assim os paus, uns por riba dos outros para dar faxina. Plantava as mesmas coisas de hoje, abóbora, milho, feijão, mamona, arroz, algodão. Agora a gente planta, mas não dá mais porque a chuva encurtou, quase nem um milho está dando mais, no lugar baixo sai, mas nos alto não sai.

  • A SENHORA SABE DE MITOS COMO O DA IAIÁ CABOCLA?
Eu só sei dizê que uma vez a finada (minha mãe) encomendava nóis para não agravá a onça. A onça cabocra que é a Iaiá nossa. Porque se agravá ela, ela aparece pra gente e ela bate. Bate, dá uma surra. Dizem que ela é uma onça maiada, amarela. Um cara lá no Brejo disse que não tinha medo dela não, ela veio de noite e meteu o chicote, quase mata o menino. Ele veio e encomendô nóis.
Dizem que todo dia ela vai numa área e vai na outra, onde tem as aldeia ela vai, vai encantada. A aldeia também, quando ela chega na aldeia, nós sabe, ela dá um assubio, bem forte, né? Você ainda não escuto, não? Agora ficô mais difícil, depois que o finado (Rodrigão) morreu, ficô mais difícil um pouco. Quando ela chega aqui na área nossa, nós sabe, ela assubia aquele assubio bem altão, FIUIIUUU.......

  • AS PESSOAS DE ANTIGAMENTE TINHA DOCUMENTO?
Não, era tudo sem documento. Até hoje, tem alguns que não tem. Eu mesma casei no padre, agora que estou tirando documento do civil. Todo mundo casava só no padre, desde os antigo. Depois, com o engano de negócio de civil aí, eu fui me apusentá. O finado Rodrigo disse que não precisava não, aí eu consegui assim mesmo casada no padre. Nunca deu problema não. Agora que eu consegui, depois dos dentes tudo caído. (risada)

  • E SOBRE A CRIÇÃO? COMO CRIAVA E QUE TIPO?
Criava galinha, porco; gado nóis não criava, começô criá agora, mas num passa de duas cabecinha. (risada). Não existia cercado, criava só nos mato. Cada aquele criava solto nos mato. Só ponhava a rocinha, prantava e pronto. No lugá que prantava, prantava dois, treis, quatro ano. Hoje pranta um ano e já não qué mais. Por isso que a mata acabô. A mata pranta um bocado de ano num lugar sozim. É. Não prantava capim e nem tinha criação.

  • E AS CASAS, QUAIS OS TIPOS DE CASAS?
As casas era de vara. Ponhava um bolo de barro nos buraco das vara. Quando passava dois anos, os buraco estava enxergano lá naquele mundo. Os buraco era os pequeno (risada). As porta era as vara mesmo que era as porta. Media as vara nas porta, tapava as porta de pau. A coberta era casca do mato. Hoje o povo derrubou as casca tudo. Aí deu pra fazer telha e por de riba. Era de casca. Nós mesmo tinha era de casca de pau do mato. Não é de qualquer pau não. É pordaco. Limpava ela, rapava ela, aquela casca de riba pra ficar de duas. Abria o buraco no meio e marrava as vara pra não arribar. Ponhava uns pau por cima pr’o vento não carregar. Mas aturava tanto! Quando acabou esses pau, a gente assombrava de por telha em cima com medo de cair de riba.
De primeiro, era ruim. Você tinha uma criança, caçava um pano pra enrolar, não achava. Tinha veiz que vestia uma roupa aqui e tinha que ir pra fonte lavar correndo pra vesti. Hoje tem roupa: “Eu não quero essa não!”, “Eu quero é outra nova!” Eu é que num vou bater folgado. A gente sofreu mesmo...

  • AS ROUPAS, ERA A GENTE MESMO QUE FAZIA?
Roupa e chinelo. Era todo mundo de pé no chão. As mulher fartava morrer de dor nas pernas, de dieta e de pé no chão. Não tinha nenhum tipo de chinelo. Algum que tinha, uns tamanco de pau, era um chinelo de taba, e os homens aqueles de couro de gado. Pegava e cortava assim, certinho, cortava e furava, botava umas correinhas e saía piriri-toc, piriri-toc (risada). Ainda era de couro cru de gado e os outros que não sabia, ficava de pé no chão.

  • AS COISAS DA ROÇA, LEVAVA PARA FORA PARA VENDER?
Não, era tudo pra casa, pra comer. Quando matava um porco, era espiticar (dividir) pr’ os vizinho. E quando os vizinho matava, dava também. Hoje, que acabou isso (risada).

  • PARA VIAJAR, TINHA ALGUMA COISA DA NATUREZA QUE MARCAVA A HORA?
Era pela natureza a hora. Era o galo (risada). A hora que o galo cantava era uma hora. E de dia, a gente marcava no sol. Hora que a gente pisava na cabeça da gente, era meio dia (risada). A chuva de primeiro, chuvia muito. Tinha as simpatias, ponhava nas fogueiras aí, a gente já sabia. Quando estava no mês de junho, tinha a marcação de Santo Antônio primeiro. A profecia de Santo Antônio passava pra São João e São João entregava pra São Pedro. Aí a gente pegava naqueles mês. São João marcava o mês de outubro, novembro, dezembro, janeiro e fevereiro. Aí São João entrega pra São Pedro.

  • NOS TRÊS FERIADOS FAZIAM AS MESMAS OBSERVAÇÕES?
A marcação é tudo assim. Aí, a gente vai olhando pelas nuvens. A marcação do mês de outubro, as nuve fica carregada chamando no chão do chovedor (no horizonte). O dia do dia primeiro, aí vai pra frente, os outro santo. Se tiver nivuado, chove. E se não tiver, não chove no meis. Esse ano mermo, foi marcá mermo foi no final d’água. No fim d’água vai ser mais mió. Assim mermo, vai ser chuva raleada. Março, abril e maio marcou mais chuva. De primeiro, o povo já tinha a marcação, depois entrou num mundo novo. O povo que põe a marcação, mas o mundo é mesmo que Deus marcou, e disse que tem o mundo novo, aí ficou diferente. Deus disse agora que o mês que era de chuva, diz que é seca. Aí vira as água. E as água vira seca. Agora ninguém vai saber como é que vai ser. Diferençou mermo. Cadê? Muitas coisas a gente já está vendo mermo, está certim.

  • AQUI NA ALDEIA A GENTE TEM UMA PARTE DE NEGRO E UMA PARTE DE ÍNDIO. A SENHORA SABE COMO É QUE FOI ESSA MISTURA? COMO É QUE OS NEGROS CHEGARAM AQUI?
Ele entrou dentro da área e foi casando uns com os outro e foi virando uma mistura de negro. Tanto que tem um bando de nego e tem caboclo. E virou uma mistura, uns tá apurado, os outros já num tá.

  • DESDE ANTIGAMENTE QUE ESSE NOME ERA XACRIABÁ MESMO OU TINHA OUTRO NOME?
Uai, esse é o primeiro nome de nós. Nós tratava era de FUNAIA, aí inventou esse outro nome. Tem uns que fala que era Gamela (o nome anterior ao nome Xacriabá, esse último dado pela FUNAI), mas eu conheço gamela era de secar fubá, ou prato pra gente comer. Prato de barro, panela de barro, mãe fazia panela de barro, prato, xirquinha pra nós tomar chá, café, tudo ela fazia.

  • NÃO TINHA NADA DE PLÁSTICO E DE ALUMÍNIO?
Não, não tinha não. Nós só comia nessas coisas assim de madeira e de barro. E a gente gostava, iihh! (risada)

  • ANTIGAMENTE FAZIA FARINHA DA RAIZ DE UMBU?
Quando a gente tava com fome, que não tinha nadinha, só via desgravatando os pé de umbu pra fazer farinha. Mandioca, pai relava. A mandioca tava cheinha d’água. Espremia aquele trem fofim, fazia aquele grolozão. Não saía farinha não. Era o grolão, o bolo desse tamanho, já era pra comer. Botava no prato, se tivesse feijão, ponhava. Se não tivesse, comia o bolão com sal (risada).Êta Deus! A gente de primeiro sofria muito um bocado.

  • NESSE TEMPO A COMIDA ERA ASSIM E OS MENINOS PEQUENINHOS, ERA SÓ NO PEITO?
Era no peito e fazia mingau de fubá de milho. Só dava só disenteria, menina (risada). A metade dos menino meu, não vou mentir, só dava disenteria e dilatação, sabe? A gente dava remédio mais remédio, tinha veiz que dilatação, desnutrido só de fome. A morerinha (moleira) chega a um pilãozinho fundo de fraqueza. As veiz, o leite da mãe não dava. O dia que a gente comia qualquer coisinha, dava um leitinho, o dia que não comia, oh, meu Pai! Pobre de eu, sofria um bocado. Ainda mais eu que tinha os peito doente. Minha irmã quase não dava leite não. Comia só o mingauzinho. Com quatro méis, já machucava aquela comidinha pra botar pro menino comer. O menino pelejava fazendo vampim (vômito), pois era pra engolir (risada). Hoje o povo anda criando as criança tudo bem criada, né?

  • E O CAFÉ, COMO ERA PARA FAZER?
O café, ia lá e cortava a cana tá tá tá. Com o pau, trucia na vazia, cabava, estemperava, botava mais água, fazia o café e bebia. Hoje, cadê? Ninguém faz mais isso.

  • MAS ERA CAFÉ NATURAL?
Era de verdade! Nós torrava o mio, misturava e pisava o mio junto com o café. E tinha o café fedegoso. Também tinha o fedegosão, que era aquele café beirão. Mãe prantava minha fia. Torrava aqueles cardeirão, pisava pra fazer este café. Eu mermo que não gostava. Fedô (risada)! O fedegoso, quase não gostava não. A mãe do finado Zé Caetano que torrava o café, de noite. Com vinte e quatro hora, a muié ainda não bebia água. Minha irmã ainda saía rebuçada, lá pro meio dia. Por isso que eles aturou mais. O fiapo do cabelo do ouvido quase dava uns dois dedo. Foi crescendo, êta meu Deus do céu (risada)! Tem tanto coisa pra gente pensar que a gente esquece!

ENTREVISTA COM DONA ADELÁIDE

ENTREVISTA COM DONA ADELÁIDE
DATA 08\08\08
IDADE: 78 ANOS
ALDEIA: ITACARAMBIZINHO
...
De primero, nós usava prato de pau, outra hora era umas foia e esculatera de barro. As panela furava tudo, oh menina. Mãe comprava umas panelona assi bem grande pra cozinhar de comer pr’os fi’i comer. Mesmo era só dois. E ela enchia essa panela cheiinha de comida. Foi um dia, ela botou e tocou carne nessa panela e tocou arroz dessa carne e a panela furou o fundo! Êta, que nós já rimos... Agora deixa o que está no casco da panela e vamos comer o que tá no chão. Pois é, tem um bando de coisa...


  • A MÃE DA SENHORA É NASCIDA NESTA MESMA ALDEIA DA SENHORA?
Minha mãe é nascida no Riachinho e eu também sou nascida lá. É tudo de lá, meu pai também e minha mãe de criação, foi nascido tudo por lá. Mas essa é a mãe de criação. Se você quer saber é da mãe mermo, da mãe da gente, é tudo de lá.

  • E COMO ERA A COMIDA DOS ANTIGOS?
Pois é, é farinha de raiz de imbu. Essa mandioca que o povo trata de mandioca de onça, mãe (mãe adotiva) rancava aquele tanto e é o mermo que vê mandioca de castelão. Relava, mudava de cor. Ela é meia amarela né? Relava, relava, tirava aquela água, assentava aquela tapioquinha e ali misturava aquela colinha. Colinha besta. E fazia aquele beijuzinho e nós comia. Relava coco de tucum, mãe partia aquele tanto relando o coco de tucum e fazia farinha pra nós comer.

  • ESSA MANDIOCA QUE VOCÊ FAZIA A FARINHA ERA MANDIOCA NATIVA?
É nativa. Até hoje ainda tem ela. Lá no Sô Nininho tinha um pezão. Eu não sei se cabô. Mas aqui na mata tudo tem ela. A raiz de imbu, mãe rancava aquela raízão, aquela batatona, descascava e relava pra nós comer beiju assim. Ah! Nós comia era jatobá, coco, outras capoeira. É. Nós comia mais coisa, nós comia muita coisa, só o que eu sei. E o que eu não sei? Que nós era tudo pequeno, né? Cabeça de coco dos gerais, coco cabeçudo, nós comia muito! Assim era a comida dos povo antigo.
Outra coisa é a taioba, que até hoje a gente come. E inhame. O ponto é achar. Eu mermo, se eu achar, eu como. Mas parece que esse inhame do mato cabo, e eu não sei como é que ele cabô. É uma comida boa, o inhame enxuga. Ele é bom porque ele não coça. Ele é nativo, de toda a vida nós come. Pipoca de mi’o torrado, nós pisava e comia, torrava o mi’o. Eu como até hoje.

  • E NÃO COMPRAVA COMIDA?
Não, não tinha nada aqui não, só tinha no comércio, que era quem pudesse ir lá comprar. Quem pudesse ir lá comprar, comia, e quem não pudesse não comia. Não tinha cavalo, não tinha jegue, não tinha nada. O jegue e o cavalo era esses aqui ó (mostrava as pernas dela). Quem podia ir lá buscar, buscava, quem não podia...

  • PLANTAVA ROÇA COMO HOJE OU ERA DIFERENTE?
Plantava roça que nem hoje, nunca deferenciou. O prantá da roça era um sozim. Pranta mi’i, feijão, abroba, muranga, melancia. Só que era mió, que dava bastante. Ocê trabaiava mais pouco e coía um bando. Óia, de primeiro, cê prantava um prato de feijão e coía um saco. E aconteceu comigo. Depois que eu cheguei aqui mais Sinhá, nós prantamo uma roça. No primeiro ano, ela prantou um prato, eu prantei outro, ela tirou um saco e eu tirei outro. Tá de pouco tempo que acabou. Agora nós bate prantando, mas não cóie nada dessa vida, mais é trabaio, né? Se coiê pra provar, ainda dá graças a Deus. De primeiro, o tempo era bom. Ocê matava um gado, a carne era boa. Hoje, ocê mata um gado, ocê come que é o jeito. Cê matava um porco, cê não comia osso do porco, ocê só tirava a carne por riba (risada).

  • E CRIAVA MUITO?
Criava. De primero, criava bastante coisa, porque não tinha esse negócio de cada um ter o seu. Tudo era vasto. Tudo junto. Era vasto, gado solto pro mato. O dia que queria dar o sal ao gado, ia e chegava e jogava o sal, e tudo comia. Não tinha isso de dizer “esse é meu e aquele é seu”, não, não tinha isso não, tudo era junto. O lugar onde você interessava, você fazia a casa e botava a roça. Não tinha esse negócio e dizer que esse é de fulano. Você ia trabaiá onde interessasse. Hoje não. Tá ruim.

  • DE PRIMEIRO, TINHA BRIGA COM OS BRANCOS?
Não. Não tinha esse negócio de branco aqui não. Não tinha branco aqui dentro não. As pessoa era pouca. Pro’cê ver, na casa do vizinho, ocê saía hoje, ocê ainda dormia no caminho. Pro’cê ver, a chegar na casa dele, ocê ainda dormia de riba do pau, pra onça num te comer. Era assim, era longe, não tinha ninguém não. Não tinha mistura com branco. Os branco não tinha misturado com os índio, ninguém nem sabia o que era negócio de branco. Tá sabendo agora. De primeiro, era tão bom que num tinha mistura. Eu vim conhecer essa mistura depois que eu vim pro Brejo. Aqui não tinha mistura não, os índios eram separado. É tanto que o finado Gerome e o finado Pedro era caminhador pra Brasília. Finado Gerome, quando ia pra Brasília, ele ia lá pra casa.
“É meus fio, eu vou passar a noite mais ocês”.
“Ocê veio, Tio Gerome ?!”
“Vim! Ah, vou lá pra Brasília, eu vou resolver um negócio lá pra nós. Que o negócio está querendo apertar pra nós. O povo tá querendo tomar as terra nossa. Os branco quer entrar meus fio.”
“Nossa! Mas os branco vão entrar na terra nossa?”
“Vamos arrastar é a barriga no chão pra mó de branco não entrar nas terras, porque se eles entrar aqui, as correntes vai arrastar! Mas com fé em Deus, as corrente não vai arrastar nas terra de índio não. Se eu morrer, Pedro fica no meu lugar.”

Você conheceu o véio Pedro? Você conheceu ele. Pedro aí do Sapé. Pedro de Gerome. Ele morava bem ali, onde o Chicão está morando hoje. Cê conheceu Morrão? Morador daquele Gerais lá, num era? Moço! De primeiro que era bom! Se fosse que nem de primeiro: “fulano vamos fazer uma casa pra acolá?” Lá mesmo fulano faz a casa e bota a roça. Hoje é uma encrenca. É uma maior encrenca que tá. Tá uma encrenca danada. Ocê não pode, nem pra tirar um pau na terra do outro, não pode tirar. Porque se tirar, você tem que pedir o dono. Se o dono deu, bom, se não deu... Se precisar, se não precisar, cada um tem o seu. Ou ruim ou bom, mas tem. De primeiro é que era bom. Era bom, mas era bom mermo! Que não tinha essa encrenca assim de matação de gente não.
De jeito nenhum. Nem briga não tinha. Eu lembro que nem briga não tinha. Óia, eu vim conhecer esse trem foi uma vez que o finado Miguel morava em Varge Grande. Aconteceu isso. Isso aí eu lembro bem. Que o finado Miguel foi numa festa de Santa Cruz lá no Cabano e, de lá pra cá, ele veio mais o compadre dele, mais o Antônio de Josia, que morava aí nas Caraíbas, e o Antônio do outro lá, esqueci o nome do home. Foi ataiá no caminho que já vinha embora, aí o Miguel foi falou assim: “Cês tá aí conversando, deixa eu ir embora, eu tô com sono, eu vou-me embora”. Aí, ele olhou pra trás: “Vão bora companheiro!” Que ele olhou, só viu faca clareando. Disse: “Meu Pai do Céu! Que é que eu vou fazer? Será que eu vou voltar lá?” Aí ele voltou lá. Tava um de lá, outro de cá, todos dois quem nem galo. Aí ele foi atravessando no meio e disse: “Me atende compadre, me atende compadre!” Quando ele falou assim, o compadre tacô a faca nele. Aí ele caiu do burro e foi pro brejo. Foi a primeira vez que eu vi isso. Nunca tinha visto. Bom aí vimos embora aqui pro Brejo. Inteirô duas com aquele menino, um menino besta que tinha aí do véio Pedro cachiado. Pra ele mi era besta, todo mundo dezia que ele era besta, pegaram o pobre do menino e mataram. Nos já morava no Brejo, eu digo: Ué! E já viu matá gente?! Gente mata é bicho, não é gente não, daí o povo seguiu. Ô! Agora, porquê? Porque o povo rendeu demais, e tá tudo muito locéia, e tá desobidiente, tá muito desobidiente.
Mas de primeiro era bom, um fazia uma festa e saia avisano ocê, aí agora quand’ocê chegava naquela festa, ô! maió alegria, ocê comia, tomava café a noite inteirinha, i i i! Esse povo dançano, dançava um lundu, era lundu, não tinha essa coisa não de rasta pé não, era lundu, era um samba, aí assi a noite inteirinha, só tomano café e comeno o que tinha. Ali agora o sol saía e ocê tombém até que isquecia. Era aquela harmonia, até uma hora dessa, o povo tava sambano, que era bom. Hoje a gente tem medo até de fazer uma brincadeira, é! Ah! Tempo bom! Ainda arcansei uma beradinha ainda, arcansei uma beradinha do bom, e do ruim. (risada). Mas Deus ajudou que eu passei, Deus que não deixa, meu pai, vim esse tempo mais não que eu passei, passei muita necessidade, é! Passei muita necessidade.

  • E NAQUELE TEMPO TINHA APOSENTADO, GENTE QUE GANHAVA SALÁRIO?
Não, não tinha nada, de jeito nenhum! Não tinha nada.           

  • E QUEM IA COMPRAR NA CIDADE, COMO COMPRAVA?
Comprava trabaiano na roça, quando ganhava as coisinhas; pegava e vendia e ia comprá lá. Plantava arroiz. Nós prantava muito arroiz lá nas lagoas; coia bastante arroiz, jogava arroiz no pilão, pisava aquele arroiz levava pro comércio.

  • CHEGANDO LÁ, VENDIA A DINHEIRO OU TROCAVA?
Vendia é a troco, trocava a troco de café, sali, outras coisinhas se tivesse precisão. Quem tivesse precisão ia panhá lá, toicin nóis levava era de cá. Hoje nóis vamo panhá lá. Tá veno como que as coisa é! Mudou muita coisa. Era assim, era no braço, o pobrizin dos veín só fartava era morrê minha fia, de tanto trabaiá, só que tinha uma coisa, quando aquele vein chegava a arriá que não aguentava mais serviço já tinha gozado, comia bom, né! Criava porco, criava bastante coisa, cabra, carneiro, as porta da varanda dos pobrezin vivia aquele bando de coisa, porco, tudo aí pus chiqueiro, era assim. Hoje tomo comeno tudo do comprá, panhano no comércio e comprano. Hoje tá bom. Ô! Lá pra baixo tem venda, lá de junto d’ocê tem uma venda, aqui de junto de mim tem outra venda, vão meu fio, vai compra lá, de repentinho o menino correu e comprou lá. De primeiro não tinha isso não minha fia. Ninguém achava menino para panhá não, porque era no Itacarambi, Januária e na Manga, era assim, e era se guentasse ir, se não guentasse, ficava aí memo, era assim, desse jeito.

  • E TINHA DOCUMENTO PESSOAL?
Não, não tinha documento não, era tudo aí como uns bichinho, eu memo não tinha documento não, eu vim pegá documento depois que casei. Ninguém sabia o que era isso de documento. Pai dos menino não tirava data de menino (data de nascimento) era como saía, uns bichin aí, uns pinto do ovo aí, não tinha nada disso não. Hoje não; até os bichim tá registrano. Minha gata memo é registrada, tem documento (risada). Não é memo! Hoje até cachorro tem documento!

  • A SENHORA SABE CONTAR A HISTÓRIA DO DOCUMENTO DA TERRA, DA DOAÇÃO DA TERRA?
Ô minha fia, isso aí já não conto com a cabeça não.
[Tem uma história de que foi Dom Pedro que deu a terra, a Princesa Izabel.]
Isso aí não, aí não sei; aí é outras pessoa. Seu pai sabe. Já sobre isso aí eu não sei não. Do que que serve eu falá pro’cê que sei, mais eu não sei, né! As outras coisa tudo eu sei.
Os candinheiro nosso era de barro, nóis enfiava uns pauzim assim na parede, fazia os candinheiro de barro ô, as luiz nossa tudo era assim deferente, era de momona, nóis pisava a momona e tirava o azeite e botava nos candinheirim, fazia o pavi e enchia de azeite e botava lá pra lumiá nóis. Conde não tinha o algodão, enfiava a momona tudo assim no talim e enterrava o pezim no chão para lumia. Nóis sofria, de primeiro não tinha as candeia. Hoje nós tomo é no céu. Hoje tem tudo, o que nóis qué mais! Ah! O povo sofreu foi de primeiro. Eu sofri é quando pagava essa candeinha, conde vinha uma chuva de vento de noite pagava tudo, agora aí, cadê? O vento pagava tudo agora, aí ficava no escuro.
A casa nossa era de paia de capim, não tinha essa teia não, nóis não sabia o que era morá debaixo de casa de teia não. Morava era ni rancho assim ó. Era de enchimento; tinha hora que nem barro não tinha, metia era umas paia, era um paio (risada). Não era casa assim que nem essa não, era um paió memo de pô mi’i. Era assim. Não tinha cama para drumi, nóis deitava... Fazia uma caminha de vara, fazia as esteira e jogava em cima das caminha de vara.
Hoje não, o povo tá tudo com fidarguia, o povo ficou tudo rico. Ninguém vê que tem um drumino numa cama de vara, si um entrá na casa de um e vê um drumino numa cama de vara, só com uma esteira por riba, ô! Vixi,. mas aquele ali é maió inguinorança, é! É maió inguinorança.
Nóis remendava roupa nossa, era todo mundo, não era só nois não. Era todo mundo. As muié remendava as roupa delas, remendava roupa dos home tudo. Nós fiava no fuso ó, assim ô, aquele ali, ia tecer, pra mó de fazer vestido. Eu, depois que cheguei no Brejo, eu vesti um vestidão de algodão, Tonha vestiu outro, o veio vestiu uma camisona e uma camisona de algodão que nóis fiemo tudo no fuso, não tinha roda, nóis fiemo tudo no fuso. Ele ajudava eu a fiá, eu fiava a de urdi, ele fiava, a de tampá, era assim.

  • TINHA DOIS TIPOS DE LINHAS?
É, dois tipo de linha, a de urdi e a de tampá. A de urdi, ela vem pra cá, que é dura, e a de tampa vai pra cá que é mole. Olha que uma linha para guentá o peso de uma pessoa precisa ser forte, ainda bater o pé para tecê. Era bom era na roda, batia o pé até madrugada, aí era bom, mas depois que a roda quebrou, foi tudo pro fuso.
A cama faz como diz o outro. A cama era de tomba-tomba e a coberta era de lambe-lambe. Sabe o que é? É o fogo (risada). E o tomba-tomba, sabe o que que é? É o ramo (risada). Cindia o fogo, aí não tinha esteira, cindia o fogo aí, ia lá quebrava uns ramo, forrava os ramo aí na beira do fogo e deitava, aí agora ficava aí. Ô cosa boa, a quenturinha do fogo! A cama de tomba-tomba e a coberta de lambe-lambe. Sofri muito, minha fia. Não era muito assim não. Hoje não, o povo está é bom. O povo hoje tá tudo é rico. Muitas vezes eu corri de gente, sempre eu falo, eu tenho medo de gente, eu tenho medo de gente, mas sobre os assunto, se eu tiver desprevenida, todo mudo tem, ocê também, não tem? Nóis tudo tem medo, nóis tamo desprevenido, chega uma pessoa e não pode saí, aí tem que corrê. Corri muito. Eu e minha mãe, ficamo dentro de casa uma semana. Meu pai ganhando o dinheiro trabaiano. Olha, coitado, ganhano o dinheiro para vestir nóis. Ocê sabe como ele fazia? Meu pai saía cedin, no marelo do dia, saía e enchia duas cabaça d’água, botava aí pra nóis:
– Aqui pr’ocês ir fazeno a comida enquanto eu chego, eu venho cedo pra ir na fonte panhá água.
Todo dia porque nóis não podia ir na fonte pegá água, porque estava sem roupa (risada). Era uma varedona e vaqueiro só vivia encontrano, pegano gado no campo, e nóis ficava dentro de casa escondida, com as porta tudo fechada; era eu mais aquela Julinha lá da Rancharia, ela ficava lá mais nóis. Quando interava uma semana, já sabia quem ia na Januária; “meu padrin Cesáro vai pra Januária, vou pedi ele pra trazê as roupa pr’oceis”. Vixi, quando ele falava assim, nóis ficava sartano de alegre. “Que dia que a roupa chega??”(risada) Não podia ir no meio de gente para pedi pra cortá a roupa. Mãe toda vida tinha a cabeça ruda, e agora como é que faz mó de cortá essas roupa pra nóis. Pai falava: “eu corto pr’oceis, eu corto uma camisa e a saia”. Eu digo: “eu memo corto o meu”. Pai: “menina, menina ocê vai bota esse pano perdido”. “Eu não, pois eu já sei cortá”. Eu metia a mão no meu, cortava e costurava e pai cortava a camisa e a saia dela. Aí nóis ficava alegre. Agora nóis vamo pra fonte, vamo tudo pra fonte banha. Êta, coisa boa! De primeiro era assim.

Formatura do Ensino Médio 2010

Essas fotos foram tiradas no dia 28 de dezembro de 2010, na aldeia Riacho dos Buritis.











Poema

A história dormindo é muda
Mas não é surda.

Mesmo só na mente
Ela continua viva.

No meio da escuridão
Continua brilhando.

Um dia há de se transformar
Em escrita e ter vida.

Muitas delas já acordaram
E nunca mais vão dormir

Porque já estão com raízes
Plantadas na mente do povo.

Com ela a mente muda
Muda o pensar e o olhar.

E assim tem vontade de continuar
Resgatar e nunca mais para.

Essa pesquisa me despertou
Encontrei informação supreendente.