Sou Maria Aparecida Nunes Barbosa da etnia Xacriabá. Moro na aldeia Barra do Sumaré II, município São João das Missões, Minas Gerais. Sou professora há 15 anos na minha aldeia. Sou estudante universitária da UFMG.

Há 3 anos que faço pesquisa sobre conflitos e sobrevivência do povo Xacriabá e municípios vizinhos, antes dos anos 1970.

Pensei em criar esse blog para divulgar meu trabalho e de outros colegas e dar oportunidade para outras pessoas conhecerem um pouco sobre as histórias do nosso povo, que a maior parte está só na mente dos mais velhos que eles estão levando com eles.

terça-feira, 12 de abril de 2011

ENTREVISTA COM SEU EMÍLIO

ENTREVISTA COM SEU EMÍLIO
Nome: Emílio Lopes de Oliveira
Idade: 59 anos
Aldeia: Pedra Redonda
Data: 30/07/2010

  • O SENHOR PODE ME FALAR UM POUCO DE SEUS PAIS?
Meu pai, minha mãe e meu avô foi nascido no Riachinho. Minha avó por parte do meu pai morava no Brejo, mas minha família toda era do Riachinho. Agora, meu pai é filho do meu avô, mas o pai da minha mãe é filho de um Caiapó. Ele é filho de uma mulher solteira. Na época, os índios Caiapó passaram por aqui, aí engravidou uma Leopordina, que é a minha bisavó. Ela era uma mulher solteira, que nasceu meu avô. Aí eles foram embora e largaram ela aí, gorda. Depois nasceu um menino, então ele tem o nome de Felipe Pó. Então ele é Felipe Lopes da Rocha Pó, porque ele é filho dos Caiapó. Então nós temos uma racinha dos Caiapó, lá do Pará. É uma misturinha. 

  • COMO ERAM AS MORADIAS E AS LAVOURAS?
As moradias, nessa época, tudo era de capim, era uma cabana de capim, casinha de beira no chão. Assim quando eu conheci, quando meu pai morreu, deixou nós numa casinha no Riacho Comprido, numa casinha coberta de capim agreste, rapado no tabuleiro, aí minha mãe não quis ficar lá. Ele morreu aqui na nossa casa, que era de casca de pau.

  • TINHA O PAU CERTO PARA TIRAR AS CASCAS?
Tinha. Tinha o pau d’arco, que tinha muito nessa época. E tem ainda. Todos eles tinham casa de capim, aí foi tirando as cascas e vendendo para eles de lá, que não queriam arrancar mais capim, aí ia fazendo de casca também. É dessa maneira o trabalho nosso naquele tempo.

  • E PLANTAVA QUAIS TIPOS DE PLANTAS?
Plantava mais era milho, algodão, mamona e mandioca. A gente ganhava uns centavos era de algodão e mamona. O milhozinho a gente só plantava a conta de comer. Ele todo ia pro pilão para tirar a farinha, a canjica. Ninguém tinha arroz. O arroz nosso era do milho. A situação nossa era assim, dessa maneira. A panela nós não tínhamos. A panela era de barro, que nós fazíamos, não conhecia nem panela, nem nenhuma outra coisa de ferro. Os pratos eram as cuias, quando não fazia de barro mesmo para por a farinha e por até mesmo a comida, ou as gamelinhas de pau que fazia para comer. E naquele tempo, os homens eram separados das mulheres, as mulheres cozinhavam na panela e botavam numa gamela para o pai comer junto com os filhos. E outras para as mães com as filhas. Sentava o pai junto com os filhos e a mãe junto com as filhas. Todos comiam com a mão. A botadeira da comida era a chefe, que era a mulher.

  • CONTE UM POUCO SOBRE O DOCUMENTO SOBRE A TERRA
A história do documento da terra. Nós, quando começamos, já tinha documento. Mas nós, aqui mesmo, não tínhamos o documento. Estava tudo no cartório. Nós não sabíamos nem onde estava nem que tinha uma doação. Quando o finado Jeromo morreu, o finado Pedro Jeromo, que era o filho dele, tomou conta do seu chefe. Ele pegou a doação, aí quando Pedro morreu, o Zé Catiano pegou a doação e dessa doação começou a guerra da terra. Porque ele pegou a doação e espinicou (consumiu) e nós ficamos sem nenhum documento. O documento que nós tínhamos era esse, que passou para a mão do finado Jeromo, que passou para o filho, do filho para o genro, e aí desapareceu o documento. Aí para nós ficou ruim. Foi a luta da terra, mas estava sem documento. Esse Zé Catiano correu atrás, mas não deu conta. Não deu conta porque essa Ruralminas foi ele que trouxe, através da sumida desse documento, querendo fazer venda de terra. Aí sumiu o documento. Aí fomo em riba, fomo embaixo, em busca desse documento. Aí já alcançamos o Rodrigo, que começou a mexer com esta terra. Ele andava sem documento nenhum. Aí a gente fez um trabalho. O primeiro documento que fez aqui foi a dança do Toré. Fez uns retratos e aí registramos. Dançamos o Toré que estava escondido, aí juntamos um grupinho da família e fomos e levantamos um terreiro, e fizemos a dança. Ainda bem que ainda tinha a imagem do Toré. Nós pegamos as coisas de lá, a mênsia, que fazia junto o grupinho que ainda entendia um pouco. Aí fomos, tiramos uns retratos. Esses retrato foi um dos primeiros documentos. O povo não acreditava que tinha índio aqui. Aí quando ele levou, eles acreditaram. Aí falou: “Ó, tem mesmo”. Aí mostrou a Jurema, que quem usa a jurema são só os índios. Essa cultura.
Aí ficamos sem documento e fomos lutando. Caminhando, caminhando, sem saber o que ia fazer. Juntava um dinheirinho, mas ninguém tinha coragem de viajar com ele (Rodrigo). A gente vendia uma galinha e dava a ele o dinheiro e ele ia viajando. Ele morava lá no Barreiro. Nesse tempo que ele começou, ele tinha casado naquele ano, que ele chegou do Paraná. Aí quando ele chegou que viu o povo tomando as terras. Ele tomou essa providência de viajar. E arrumou uns companheiros que foram Maroto, o primeiro, e Zeca de Bião. Mas Maroto já tinha sido furado de faca. Miguel de Mariano tinha dado uma facada nele. Já tinha problemas e só fez uma viagem. Quando ele chegou, logo ele morreu. Era difícil a caminhada, caminhava muito a pé para pegar o carro. Aí o Zeca foi mais ele em outra viagem. Mas ele estava viajando mais era sozinho. E nunca arrumava jeito de provar se ele estava interessado pela comunidade ou se era para ele sozinho. A justiça era desconfiada. Foi aí que ele arrumou Laurindo para ir com ele. Aí foi que eles arrumaram logo, da primeira vez. Logo da primeira vez, a Ruralminas ofereceu para eles um casa boa e uma fazenda lá para eles largarem de mexer com isso. Logo estavam interessados. Aí Laurindo aceitou isso. É bom largar isso pra lá. Já Rodrigo disse: “Laurindo, eu estou vindo aqui com dinheiro de todo mundo. Eu não vou fazer isso”. E não aceitou.
Da outra viagem, ele já não quis levar o Laurindo. Aí, quando ele foi, já combinaram que já estava mudando para a FUNAI, que era SPI na época. Quando ele mudou para a FUNAI, aí chegou o coronel Brox. Não era daqui não. Eu nem sei como esse homem chegou aqui. E ofereceu para ele arrumar o documento que ele sabia onde estava. Que estava no Rio de Janeiro. Aí ele foi e tirou uma cópia dele e trouxe e passou para nós. Aí foi que nós avançamos na luta da terra. Mas nós já tínhamos a história dela de cabeça. Como que ela foi feita. A história da doação que tinha. Eu deixei uma cópia dele lá em Montes Claros, quando eu morrer, se precisar, é só ir lá, que tem uma cópia lá.

  • CONTA UM POUCO DA HISTÓRIA DA DOAÇÃO DA TERRA QUE O SENHOR SABE DE CABEÇA. QUEM FEZ ESTE DOCUMENTO E POR QUE FEZ?
A doação foi feita na igreja de Matias Cardoso. E quem registrou ela foi Januário Cardoso Brandão, que era o escrivão do Cartório. Foi registrado lá por Dom Pedro II e Princesa Isabel. Porque aqui Dom Pedro II era rei, não era índio não. Ele que casou com Princesa Isabel que era índia. Princesa Isabel, na história do povo, ela era daqui.
Aqui os índios viviam aí pelo mato. Os índios ganhava menino aí em qualquer lugar. E tinha uma ara (um passarinho) que comia os meninos. Aí o povo não estava rendendo. Toda vez que a mulher ganhava um menino, só era chorar, a ara vinha e comia. Porque não tinha casa, ganhava na moita, igual bicho do mato. E os índios pelejava, pelejava, e não matava a ara. As armas eram badoque, flecha. Aí chegou esse homem, aí os índios contou o causo do passarinho que comia os meninos. Quando eles estavam conversando, aí uma mulher já estava ganhando o menino. E quando olhava, já vinha o bicho cantando: “Uá, uá, uá, uá”. Olha lá já vem o bicho comedor dos meninos. E ele disse: “Pode deixar vir que eu vou matar!” “Moço, será que você mata mesmo?” Ele estava com espingardinha e matou o bicho. “Moço, como você matou esse bicho com essa espingardinha?”. Aí todos ficaram felizes e alegres. “E agora como vamos pagar o senhor?” “Não, não quero nada, não”. “Quer sim. Pode escolher uma dessas índias aí. A que o senhor achar mais bonita, o senhor vai levar”. Aí deu ele uma índia. “Agora é uma coisa que eu vou dar para vocês. É o documento dessa terra”. Aí junta com a princesa Isabel e vai assinar o documento. Ela que assinou o documento. Aí foi para Matias Cardoso e fizeram esse documento. Januário Brandão era um cartório que tinha lá. Foi registrada a doação em todos os cartórios. Eles foram registrando. Até em Itacarambi era registrado. Ai Dom Pedro II saiu com Princesa Isabel e foi para uma escravidão de negro. E chegou lá e disse: “Quem quer sair dessa escravidão? Eu vou liberar vocês. Tenho um lugar para levar vocês”. Vixi, os negros todos doidos. Aí trouxeram os negros para aqui, junto dos índios. Os índios não tinham enxada, ferramenta, não sabiam trabalhar, e foi por isso que os negros vieram para cá. Veio negros e negras e os índios não quiseram mais casar com os índios, queriam casar só com os negros, porque os negros eram espertos, sabiam trabalhar. Foram eles que ensinaram os Xacriabá a trabalhar. Colocavam a roça pequena, mas plantavam de tudo, e eles trouxeram as ferramentas.

  • QUAIS ERAM OS TIPOS DE DOENÇAS E OS REMÉDIOS QUE CURAVAM?
De primeiro não tinha essa doençada que hoje tem. Nesse tempo, nem essa doença de gripe não tinha. A doença que era mais perseguida era a epilepsia, sezão, sarampo, caroção, catapora, eram essas as doenças mais perigosas, matavam mesmo. Aí o remédio que cortava a sezão era fedegozão com pucumã, não tinha essas outras não. Os remédios nossos eram só remédios do mato, a não ser a querosene, ruão e carmelão e a jalapa. Mas no mais era tudo do mato. Mas esses mesmos tem aqui no mato. No Custódio tem muita jalapa.

  • QUAIS OS TIPOS DE CONFLITOS QUE TINHAM AQUI DENTRO?
Naquele tempo não tinha isso não. E quando acontecia era no Ceará pra lá. Era um absurdo, mas, no mais, não tinha. O povo bebia cachaça, tombava para lá, às vezes brigava de murro. Mas no outro dia ia lá pedir desculpa para o outro: “Eta cumpadre, desculpa, como foi que aconteceu isso cumpade? Foi porque nós bebemos demais”. Ninguém brigava por terra ou por outra coisa. Quando um tinha uma rocinha, queria mudar, deixava para o outro. Deixava até a casinha. Não tinha apuro de nada como hoje tem. O povo hoje está com uma ganância. Comia junto, fazia um quibê (feijão cozido com angu) e todo mundo comia. Quando matava um tatu, era dividido. Uma caxumbada de fumo era dividido no grupo. Dividia mandioca, milho, feijão. De primeiro, plantava pouquinho, mas o povo era todo unido. Hoje tem fartura, mas a ganância e a pestividade estão aí.
De primeiro, se tivesse um doente, eles ficavam juntos até ele melhorar. E se morresse, eles ficavam juntos até os sete dias.

  • QUAL ERA O TIPO DE TRANSPORTE?
O transporte era o russinho. Eu mesmo não tinha nenhum jegue. Quando ia sair, dizia, vou lá pra fora. Mesmo de uma aldeia para outra. Carregava algodão e a mamona na cabeça. O transporte eram as pernas. Carregava algodão e a mamona para comprar o sal e outras coisas. Mas ninguém quase não importava com o sal não. Comia era sem sal mesmo. Também as pedras eram desse tamanho, mesmo tendo o sal, as mulheres não conseguiam quebrar. E aí comia assim mesmo. Comprava o sal era de quarto e libra.

  • TINHA DOCUMENTOS PESSOAIS?
Quá, que documento! Ninguém tinha documento não. Por isso que eu ainda não aposentei até hoje. Quando eu batizei, já tinha uns 15 a 18 anos, e quem que sabia que ano certo que eu tinha... Fizeram assim, no rumo. E eu pensei que estava fazendo a coisa certa. Até hoje estou novo. Os mais novos que eu já aposentaram e eu estou aí. De primeiro, ninguém sabia nem contar o mês e ano, não sabia de nada.
Quando uma mulher tinha um menino e outra pessoa perguntava que dia nasceu, falava que foi o dia que a porca de fulano pariu. Quem vai saber? Comparava.

  • QUAIS OS TIPOS DE ALIMENTOS QUE COMPRAVA E ONDE COMPRAVA?
Aqui, nós, quando as coisas faltavam, a gente ia pra Missões comprar ou em Itacarambi. A alimentação que nós mais comprávamos era o sal e o café. Arroz, ninguém nem falava nisso nesse tempo. Rapadura também não comprava. Temperava mais era com garapa, que cada um plantava, um pedacinho de cana para temperar o café. Temperava também com mel de abelha. Quando eles arrumavam um dinheirinho, era mais para comprar um pedaço de algodãozinho para fazer roupa. Levava o algodão naquele tempo, diziam negociata, mas era trocado pelo sal, o café e a roupa. A gente usava mais era bogaliana e algodãozinho, chamado algodão alvejado. Sapato, ninguém nem falava, a gente ia era com o pé no chão mesmo, ninguém não importava não. Ninguém tinha o costume de usar esse trem não.

  • E OS CASAMENTOS, ERAM NO PADRE OU NO CARTÓRIO?
De uns anos, de 60 para cá, o povo deu para casar no padre, que o padre andava a cavalo na reserva e achava aí algum lugar. Um finado Noliberto no Riachinho, o padre na época dele ia umas vezes na casa dele casar e batizar. Uns do Riachinho batizou no padre Zé Ramirinho. Veio no Riachinho na casa do finado Noliberto, que era o avô de Joaquim, que era o tio nosso. Era tio da minha avó. Era os caboclos mais antigos. Ele também era liderança naquele tempo. Naquele tempo que ele veio na casinha, veio batizar debaixo do pau lá. Veio celebrar umas missas lá no Riachinho. O primeiro cemitério é o do Riachinho, daqui da reserva, o primeiro cemitério foi esse. De primeiro morria pessoas aqui e levava as pessoas pra enterrar em Missões. Passava tudo aí na redona. Tinha um pé de pequi, chamava “descansa a rede”, e tinha outro que chamava “descansa a reida”. Já tinha os pontos de parada. A não ser aqueles que eram os maldosos, que enrechava com eles, esses enterrava cá mesmo, dobrava e colocava no pote. Índio mesmo e branco que entrava, eles pegavam e davam remédio para embebedar, aí dobrava e colocava dentro do pote com o fundo pra baixo, mas eram os que queriam invadir. E os que andavam também batendo com a língua nos dentes, eles faziam assim também. Se visse, tinha que ficar calado. Esses eram os crimes mais perigosos que tinha de primeiro.

ENTREVISTA COM SENHOR ADELINO

ENTREVISTA COM SENHOR ADELINO
Idade: 66 anos
Aldeia: Barra do Sumaré

Desd’o meu conhecimento, de 44 pra cá, eu conheci muitas coisas não tinha,: não tinha cacique, não tinha liderança, que é o representante que eles falam hoje; tinha era chefe. O chefe era um sozinho, mandava na reserva toda. As confusões era menas. Esse chefe sozinho resolvia tudo. E quando tinha qualquer uma coisa para resolver, ele ia em Brasília, ai nós ajudava ele, porque não tinha condições pra ir, tinha que ir a pé, então por água, aí cada um dava uma ajudinha conforme podia dar. Viajava um mês, dois, quando chegava, trazia qualquer solução. Não era viagem de todos os dia não, todo ano ia uma vez, ai ficava.
O chefe na época, que eu conhecia, era Germano, depois de Germano, passou pra Pedro, filho do Germano, e tinha um ajudante que era o que viajava mais, era Estevo Boca de vaca, o companheiro dele, que viajava na época. Depois disso, foi indo o velho Pedro, o chefe faltou, aí foi confusão pra nós, ficou sem chefe, aí tinha um moço muito sabido, não era nem índio. Era o genro do Pedro que era o chefe, pegou a doação e pegou trabalhano até que ele foi em Brasília ou em Belo Horizonte, um lugar assim, o povo descobriu que ele não era índio, aí tomou a doação dele e guardou por lá, aí foi ruim pra nós, aí ficou, ficou, aí agora nós foi sofrer.
Enquanto isso, os posseiros achou esta vaga e caiu pra dentro, comprano terras, aí não tinha mais a doação, não tava mais na aldeia, ai a doação ficou segura lá em Brasília, enquanto isso, nós aqui não tinha quem ia lá procurar.
Depois pareceu um, o Rodrigo, era um rapaz novo. Ele lutou por isso aí, lutou um bocado de tempo, e nós ajudava ele, egualimente ajudava o outro.
Juntava o povo da aldeia tudo e ajudava, ele era fraco, sufria e ia lá, até que liberou de novo, mas até liberar isso aí já estava cheio de fazendeiro. Os índios já tinha saído a maioria, que os fazendeiro já tinha escuraçado. Um posseiro comprava um harqueire de terra e cercava a área quase tudo, e foi indo assim, nós sofria para intimidar os povo que não queria vender, trazia polícia militar, fazia aquela pressão, os que tinha medo ficava fora, os outro enfrentava briga, e foi essa luta até que a gente venceu. Rodrigo tentou e venceu. Pra nós, ele trabalhou muitos anos. Até nessa época de hoje.
Aí, antes disso, tinha o Almerindo, que era o chefe do vendedor dos posseiros, vendia terra p’os posseiro e apoiava ele aí. A casa dele fazia com coisa que era até um tipo de um posada de policiamento. Era igual um tipo de quartel. Ali era polícia pra todo lado intimidando os índio, os índio afastava, mas depois chegava de novo. Achava que aquilo não estava certo, e chegava de novo lutano. Aí tinha época que nós, antes deles, chegava, nós juntava os índio todo mó de eles não entrar nas aldeias. A mó de não entrar nós tapava as boca nas estrada, eles destapava, e era aquela luta, até o finado Rodrigo mais Emílio, Lorindo e o finado Roso era os mais pressiguido. Nós tapava as estrada para eles não entrar, para não judiar com os índios, eles chegava e destapava, outras vezes botava a polícia para fazer nós destampar, aí a gente destampava e tornava com isso, não esmorecia, até que venceu. Tapava a estrada para os posseiro não judiar com os índios, que eles entrava para intimidar, e os índios saia tudo. Então, a gente tapava para eles não entrar, para não esguaritar os índios e sair fora da aldeia. Enquanto eles não entrava, todos os índio tava permanecendo na aldeia, aqueles que tinha mais coragem ia enfrentando e fazendo a defesa dos outros. Aí foi, até que os posseiros, com toda essa luta, até que teve um acontecimento dessa luta: o finado Roso morreu. Aí foi que tomou uma providencia que afastaram eles. Nessa época, num foi fácil não para afastar estes povos.
 
  • O ZÉ CAITANO, ELE ERA ÍNDIO OU NÃO ERA?
Não, ele não era índio, mas ele era genro do Pedro. Só estava tomando frente porque queria tentar ajudar, mas não aceitou não, sobre conviver podia, mas para mandar essa causa aí não podia.

  • NESSA ÉPOCA COMPRAVA ALGUMA COISA LÁ FORA, OU ERA TUDO AQUI DENTRO MESMO?
É, bom, comprava coisas lá fora, o que não tinha na aldeia, o que faltava na aldeia, comprava lá fora. A gente só convivia aqui dentro da aldeia, porque nesse tempo não tinha estrada, não tinha condução de fora para trazer nada, quando os índio precisava de alguma coisa, saia lá fora, ia à cavalo ou à pé, arrumava uma coisinha lá e trazia, mas assim, levava também muitas coisas que lá não tinha, que nem toicim, vendia lá e comprava sal, café, era o que comprava lá. Fazia a troca das coisinhas de cá por as de lá.
Nessa época, na cidade, comprava tudo que nós fazia, comprava algodão, comprava momona e lá nós comprava o café e o sal e outras coisas que estava precisano, é, era assim. 

  • TINHA CONFUSÃO ENTRE OS ÍNDIOS, ÍNDIO CONTRA ÍNDIO?
Não, não tinha não. Os índios, de premeiro, não tinha confusão que tem hoje. Os índios, de premeiro, tinha confusão com o pessoal de fora. O pessoal de fora que eles não conhecia. Com o pessoal de fora, qualquer coisa eles brigavam, porque eles estranhavam aquele povo. Eles não considerava o povo de fora igual o povo da tribo; ali era um grupo, aquele grupo era reservado. Agora chegava uma pessoa de fora, que às vezes fosse amigo de um que quisesse o bem, então, se ele agradasse um, estava agradando todo mundo e, se ele desagradasse um, desagradava todo mundo.
E hoje não está assim, o pessoal hoje já não está assim. O pessoal hoje já tem aldeia, aí que inimigo já briga um com o outro, às vezes por causa de pessoas de fora, que coisa! Tem horas que dá mais apoio uma pessoa de fora. E misturou tudo, isso aí não está sendo bom igual era não, porque aquele não está preservando o grupo, igualimente era não. O índio não tinha confusão com o pessoal de fora, aí de um tempo pra cá foi misturando, depois dos posseiros pra cá foi que teve essa revolta, índio contra índio, contra os de fora também, tá igual, a briga com os de fora está sendo pelo mesmo motivo. Hoje já não tá um grupo separado igualimente era não. De muito deferençou, não sei porque rendeu, mas o pessoal estava misturado com os branco, porque na época o branco e os índios viviam fora do branco, era os  grupos, só era índio no grupo do índio, hoje está tendo mais branco do que índio.

  • O SENHOR SABE POR QUE O XACRIÁBA FICOU MISTURADO?
Pra misturá veio pessoal que não era índio, veio da Bahia, veio de Cochá, veio de vários lugares misturando com os índios. Chegava ali, os índio, o índio ia agradando aquele grupo ali, os índio já passava a ser amigo. Naquilo foi misturando, aí, depois que misturou, outros chegava saber notícia da área, já vinha era assim.

  • E AS ROÇAS, COMO QUE FAZIA?
Aquela roça colocava e plantava feijão, abórbora, mandioca, plantava milho, batata e vevia disso aí. Roçada tinha bastante pessoal. Gado, gado, os índio não criava, quem passou a criar gado foi o pessoal que chegou. Na época, chegava, misturava, aí ia criando. Mas o índio mesmo não criava não. Aí depois que foi misturando os índio, foi misturando e comprando gado. Até que chegou a época que é hoje, que tem fazendeiro de todo tipo, o gado foi criado quando o pessoal de fora começou a chegar aqui, antes ninguém criava gado não. Os primeiro criador de gado aqui foi os não índio. Aí os índio foi vendo aquilo e foi aprendendo, até teve a oportunidade de criar tombém. Mas veio criar memo depois dos posseiros pra cá.
E outra! Aqui dentro da reserva não tinha um índio que tinha carro, não tinha nada, não tinha casa boa, hoje o índio está tendo casa boa e carro e tudo, o índio está sendo dono de carro e de tudo, depois dos posseiros pra cá, antes disso aí não tinha nada, mes aqueles que podia mais comprava era um cavalo, mas era! Mas era alguns, os outros andava mais era a pé, era mais a pé, rodava tudo a pé, não tinha cavalo não, alguns tinha, mas rodava mais era a pé.

  • COMO ERAM AS CASAS?
As casas eram de paia, casa de inchimento coberta de casca de pau, tinha um capim sapé, era o capim cobridor de casa, cobria casa de paia de coco, as casa que cobria era desse aí. Tirava casca de pau e cobria as casa, aquilo era bom.
As panelas era de barro, os pratos de barro, aquelas candeinha de lumiar era feita de barro, ponhava um pavi’i dentro, moiava com azeite de momona, aquilo fazia festa, tudo com essa candeia, lumiava a festa todinha com essa candeinha de barro com pavi’i de algodão molhado com azeite de momona. Hora que dava um vento, pagava tudo, daí vinha com um tição cendeno.
A sonfrona de toque era uma sonfrona de oito baixo, falava Pé de bode, aí tocava umas violas, umas caixas de couro, batendo, e aquilo era uma harmonia. O povo cantava e dançava, e era três dias de festas naquela harmonia. Nessa época, dessas festas aí, a pinga tinha, mas não era toda festa que arrumava. A pinga tinha, mas era muito difícil; os ‘lambiqui era muito longe e acontecia que era um sozinho, a pessoa arrumava um litro de pinga e fazia 20 litros de vinho de sambaíba. Tirava a casca lá do pau do mato, e fazia o vinho, já tinha o pau preparado para fazer vinho. A pessoa já tirava e cozinhava, fazia aquele conzimento e temperava na pinga, aí fazia o vinho e todo mundo bebia, viche! Era uma harmonia doida, o vinho era gostoso, tinha vinho de jatobá, tinha as plantas de fazer as bebidas. Tinha pinga mesmo, o pessoal pegava as pingas, aí bebia, não era como hoje não, eles trazia uma lata, tinha 20 litros, eles ponhava lá dentro do terreiro, cada um chegava lá com uma cuia, despejava um pouco e todos bebia, mas todos que bebia tinha que ter sua cuia, não ia beber na cuia do outro não, que ele não dexava! (risada). Quem quisesse beber, tinha que levar a cuia, se não levasse, não bebia, porque não tinha onde beber, não tinha vazia. Hoje não, um copo, o pessoal de uma festa bebe num copo só, e no tempo dos índios lá, não bebia não. Era amigo de todo mundo, mas cada um tinha sua cuia de beber. 

  • E AS FESTAS?
As festas de casamento, quando casava uma moça, era três dias de festa. E quando era um festejo assim de um santo, aí era um dia pro outro mesmo. Aí quando era uma novena, como o festejo de Santa Cruz, era onze dias de festa, todo dia festa, todo dia festa, começava dia 23 terminava no dia 03. E o festejo das Noites no mês de abril, que começa dia 23 e termina no dia 03 de maio. São dois festejo. O festejo de Maria é 31 dias de festa, começa no dia primeiro termina dia 31 de maio, é trinta dias de festa. Essa ainda tem na aldeia do Sumaré e no Brejo ainda tem. Tombem só está existindo essas. Ainda tem os festejos de reis das folias; que eu conheço desd’o começo, as Folias de Reis. As Folias de Reis era festejadas desd’o começo. 

  • E A SAÚDE, QUAIS AS DOENÇAS QUE TINHA MAIS, E QUAIS REMÉDIOS CURAVAM?
É, a doença que mais prejudicava neste tempo, que a gente já tinha medo dela, era o sarampo, varíola, catapora, essas aí e a febre amarela, tinha uma maleita, essas aí era as doenças que existia de primeiro, só era essas era as perigosas, só era essas. Mas aí a gente já sabia do remédio e tinha as ervas armagas, as pessoas ia lá e fazia uma garrafada, tomava e sarava a cezão.
E a de sarampo e varíola já tinha o remédio preparado, também as pessoas não procurava remédio para essas doenças, nem chegava a pessoa adoecer, a pessoa já corria lá com o remédio e já fazia e sarava, o único remédio que nóis procurava fora era pra febre amarela, era uma pírula contra ela, era uma pastinha preta. Mas ela era feita do remédio do mato mesmo. Essa nós comprava lá fora, também era só. Os outros nós fazia aqui no mato. Esses aí já cortou também e acabou e nós continuamos no mesmo que estamos até hoje. O remédio nosso era esses. 

  • QUANDO MORRE AS PESSOAS, HOJE MUITAS PESSOAS NÃO GUARDAM LUTO. E ANTIGAMENTE?
De primeiro, quando morria uma pessoa, às vezes o pai da casa, no sétimo dia, todo mundo vestia de preto, até a casa era coberto de luto. Se fosse o homem, ponhava o luto na porta da frente, se fosse a mulher, ponhava o luto na porta da conzinha. E os parentes, a mulher era luto fechado um ano, depois de um ano, aí ela já podia vestir uma blusa só branca, com um ano podia vestir só branco, de vermelho ela não vestia mais nunca. E a parentaia, luto fechado 6 mês, os parentes era uma divisa de 6 mês; primo, sobrinho, tudo era uma tira preta na camisa, era a divisa; e a mulher, um ano de luto fechado, os irmão, um ano de luto fechado. E aquelas pessoas, sobrinho, que era a divisa. E quando morria uma pessoa, passava um ano ou dois anos, todas vezes que encontrava a parentaia, que alembrava, todo mundo chorava. E hoje, nem em roda da pessoa que morre ninguém esta chorando. De primeiro, só era encontrar, chorava. O luto hoje é alguns que põem. De primeiro a roupa era tingida de lama. Hoje a gente vai contar pro povo, acha que é mentira. Mas é verdade. 

  • MAS TINHA A LAMA PRÓPRIA?
É, tinha a lama própria, é o mussambé, para tingir a roupa.
Na época, a Caboca, antes dos posseiros, antes dos fazendeiros tomar conta da área, tava aqui na reserva.  Ai a Caboca afastou. O que afastou ela mais foi o povo de fora, o povo de fora deu para invadir a área, ela foi afastando. Mas, de premeiro, quando tinha só índio, ela visitava todos os índios que tinha na aldeia, ela chegava, ela subiava, a gente já sabia onde ela estava. “Onde que a Iaiá está? Tá em tal lugar”. Ela avisava onde ela estava na aldeia, ela subiou que ela tava aqui! Outra hora ela apresentava as pessoas, todo mundo dava notícia dela. Depois que foi chegando o pessoal de fora, foi tomando conta, ela foi afastando.
Nessa época, se entrasse uma pessoa de fora, ela pegava e dava uma surra nele. Se entrasse, ele não saia, só era entrar sem ordem, levava uma surra e saía. Até os primeiros carros que entrou aqui, os carros de invasores de terras que tentou entrar duas vezes, não entrou. Chegava no Juco, ela segurava o carro e não rompia, eles achava que tava atolado, mas o carro não rompia, cavava o chão e tudo, mas o carro não rompia. Pra trás voltava, mas prá cá não. Iaiá segurava ele para não entrar na reserva, aí outro veio de lá e tentou passar, ele passou, mas não rompeu nadinha e quebrou a perna, quebrou tudo, aí voltou, mas só que não conseguiu romper não. Quando ele estava, tinha a lapa tapada, coberta, até hoje essa lapa tá coberta, mas um coqueiro de três galhos, que ninguém via ele lá, só algumas pessoas de ciência que conseguia ver ele. Hoje não, todo mundo vê ele lá, de primeiro não via ele não, era invisível, hoje, depois que o povo saiu com umas certas coisas, na saída dela, acabou o encanto dela, exemplo: o coqueiro de três gaia. Todo mundo que vai lá vê ele, todo mundo dá notícia dele. Fica na aldeia lá no Brejo, a lapa tapada tombém fica é lá; mas essa ninguém não vê ela não, ainda é encantada.
Vai mudando tudo, vai passando o tempo, o povo vai mudando, o jeito do povo. Os índios é unido, os que é índio, ele não tem orgulo não. Hoje o que eu acho deferente é o outro, que está desmantelando o índio. O índio desmantelou, mas o índio foi com a política, é depois da política, separou o índio. O índio não pode ter grupo separado, o grupo de índio é um sozinho. Hoje, o índio está separado em todo grupo, então é isso aí. O CIMI entrou ai tombém, que já fez muita coisa. A primera briga que fez, o índio não tinha esse intenção de brigar, foi o CIMI que fez a pressão, aí começaro essa violência, foi, mais foi no tempo que o CIMI deu aquela cobertura, que tinha pessoa que já tinha influência e aí achou aquela cobertura. Aí foi o CIMI. A pressão sobre briga, às vezes fez um lado, mas por outro não fez. Foi bom por um lado, mas por outro já não foi, porque o melhor mesmo é a união. Depois disso pra cá, o CIMI já ponhava que tinha que brigar mesmo, as vês tinha índios que não queria brigar, aqueles que já revoltava com aqueles que não queria, já foi dando certo, não foi uma coisa assim de uma vez, mais divagar, divagar, desmantelando aos poucos, às veiz uma casa tirando um tijolo nela, hoje a gente não dá fé, mas vai tirando três, quatro, aí a gente vê que está desmantelando, não desmantela de uma vez, é divagar. Então se não tivesse agressão à vida dos índios, estava o mesmo que era, agressão vivida e nem a separação de político está separando o grupo do povo. 

  • E COMO ERAM OS TIPOS DE ROUPAS E CALÇADOS?
Os carçado de primeiro era o índio mesmo que fazia. O índio vei calçar e vestir e alimentar de alimento de branco foi depois desse tempo dos posseiros pra cá.
Antes disso aí, o índio calçava os calçados era chinelo de couro. Tinha aqueles, não era todos não, aquele que era mais experiente, pegava os couros e punhava aquelas correias e fazia o chinelo, outros costurava e fazia, ficava era bonito. Aquilo era encomendado, fazia e vendia chinelo para aquele povo todo, ia pra festa e tudo, aí, depois que os brancos foi chegando, os não índio foram misturando, vieram com os sapatinhos pretinho lá de fora, outros amarelo, aí foi achando bonito e foi calçando tombém, aí até que costumou, mas muitos ainda tem as precatinhas de couro que fazia. Eu mesmo ainda faço, não chamava não era de chinelo não, era de precata, o sapato não era sapato, era botina; das mulheres era sapatina.
A cama era todas de madeiras e dizia de cate. Hoje, eu ainda considero as camas que o índio faz de cate e as que é feita lá fora que o branco faz pode ser a mesma cama, mas o nome é outro. 

  • E AS ROUPAS, ERAM TECIDAS AQUI MESMO?
É, as roupas era tecida aqui mesmo, as mulheres pegava o algodão, fiava, já tinha a roda de pau de fiar, fiava e fazia aquele novelão de linha. Outra hora fiava no fuso tocado pela mão e a roda é tocada pelo pé e a mão, na roda fazia a linha de urdir, de fazer o tamanho de quantas metragem de pano, quantas varas de panos ele queria, não era metro não, era vara. E o fuso ia fiar para tecer aquela quantidade. Era dois tipo de linha, ai fazia roupa para homem, pra mulher, fazia cuberta para embruar, a roupa de casa fazia tudo no tiar, vai tecendo até fazer o pano, era difícil, só comprava pano lá fora, aqueles mais forte, que tinha um dinheirinho, os que não tinha, vestia a roupa que eles mesmo fazia, é! Era bonita, fazia branca, fazia de listrinhas, ia na festa e dançava a noite inteira (RISADA)!

  • COMO QUE FAZIA AS LISTRAS DO PANO?
As listras eles tirava a tinta anil, que é uma erva que chama anil, tirava de corante uma tinta mais bonita, assim azul, conforme a cor da tinta, se quisesse a tinta verde anil, se quisesse preta era de corante, se quisesse vermelha era de aruncum. Já tinha as tintas de tingir, se quisesse fazer as roupas tudo de azul, fazia, ponhava numa tinta só, se quisesse de vermelho tombém fazia, que era o oruncum, e era assim que o pessoal vivia, assim.

  • HOJE USA SHAMPOO, CREME DE CABELO, E ANTIGAMENTE?
De primeiro, o pessoal aturava cente e tantos anos, tinha vezes que nem um comprimido não tomava, bebia era uma erva do mato, sentia alguma coisa eles já sabia a erva que tinha lá, rancava e bebia, ele morria com centes e poucos anos, não tinha um fio de cabelo branco na cabeça. Hoje as pessoas, deu de vinte anos, já está com a cabeça branca. Tombém o que eles usava no cabelo era: eles pegava, tirava o óleo da momona e cebo de carneiro e flor de maria angerca, aí fazia aquela pomada, usava de porco e cebo de gado, gordura de porca, daqueles porcos bem preto cabeludo, fazia aquela combuca daquela gordura e batia bem batidinha, tirava a fulor de maria anjerca e ponhava dentro, viche! Aquilo era um perfume, que eu vou falar! O perfume era esse, ninguém comprava perfume lá fora não, o perfume era caçar era as ervas, as fulôs das ervas para perfumar, aquele era um perfume que não acabava, perfume muito saudável que eu vou falar! Não era comprado que nem hoje não. Hoje o pessoal largou o perfume da natureza, é, estão comprano lá fora, por isso que os cabelos estão caindo tudo. De premeiro não caia cabelo não, o cabelo era seguro, não alvejava. É, era assim, o remédio era esse e lavava era com sabão de dicuada e casca de mutamba.
Quando a pessoa tava com febre ou tomasse algum remédio ou a mulher ganhasse nenê só lavava a cabeça com conzimento do mentraste, podia lavar, não sentia nada. Hoje em dia a mulher não faz banho de nada, banha é no chuveiro lá (risada), com shampoo. De premeiro não tinha nada de shampoo não, banhava era no conzimento do mentraste. O perfume da pomada, todo feito com azeite e flor da angélica. 

  • CIÊNCIA DA LUA
A ciência da lua, de primeiro, quando nós conhecemos aí nós íamos trabalhar. Nós olhava a noite, e saía para plantar naquela roça o mantimento que não tinha que ver a lua. Aí, quando a lua estiver minguante, para algumas coisas é boa, e pra outras não. A lua minguante é boa para plantar feijão, porque ele vai sair mais forte, mas só quando ele grana, aquele mantimento, que ele dá logo, se não ele não atura, caba logo também.
Se a pessoa quiser mantimento para guardar, tem que plantar na crescente até a cheia, aí o mantimento pode guardar, 2, 3, até 4 anos, ele não estraga. Se plantar na lua fraca, logo ele estraga, dá logo, mas estraga logo também. E se a pessoa tirar qualquer tipo de madeira com a máquina, na conserva para durar muitos anos, então tem que consultar a lua. Ele tem que tirar é na crescente até a cheia, que está boa. Se quiser, pode tirar a madeira mais fraca que existe, se tirar ela no dia em que a lua está cheia, conta três dias, aí chama escuro. Essa madeira pode ser a mais fraca que tiver, mas dura muitos anos. E aquela que já é forte, não acaba mais. É conforme a lua, e a madeira sendo boa, se tirar na lua ruim, ela estraga, racha e dá gurgulho. A tendência é acabar. Já ela pode ser fraca, mas tirada na lua boa, ela não acaba não.
Até nós mesmos, o povo hoje que não tem mais ciência, mas de primeiro, nós só cortava o cabelo na lua boa, mó de fortalecer o cabelo e o juízo, mesmo o corpo da pessoa. Se cortar o cabelo de qualquer criatura, gente ou qualquer animal na lua minguante, ele acaba, enfraqueia, ele não rompe nada, não pega carne, enfraqueia, mesmo homem ou mulher. Ele pode ter saúde e se ele começar a cortar o cabelo ou aparar um pouquinho na minguante, ele logo acaba. Na lua crescente para cheia, logo ele fortalece e fica forte e tudo. Só para o pessoal ver, tem uma pessoa, pode ser uma criança mesmo, tem muitas famílias que tem 3, 4 filhos, e outros tem 10. Tem uns que é forte, num dá trabalho, outros é perrengue, fraquinho, pode ver que ele nasceu ou foi gerado no minguante. Não tem carreira pra ele não. Ele nasce fraco e morre fraco. Agora a pessoa gerou ou nasceu na crescente pra cheia, aí ele é forte para o resto da vida. A lua é que governa tudo. O povo acha que não, mas a lua manda em tudo, tudo, tudo. Tudo é mandado pela lua, não tem nada que não é pela lua. O remédio aqui do mato mesmo, nós bebe, essas pessoas que toma remédio do mato não ocupa médico e vive cento e tantos anos bebendo remédio do mato e da natureza. Mas eles não ranca remédio todo dia, tem as épocas de arrancar o remédio. Dizia: “eu vou querer um remédio, e eles diziam: quando a lua tiver boa, eu vou arrancar. Aí, na hora que a lua estava boa, eles arrancavam e traziam o remédio. Se a pessoa procurasse o remédio e não tivesse arrancado porque a lua não estava boa, pois eles não davam aquele remédio, tinha que esperar a lua ficar boa. Hoje, as pessoas pensam que o remédio qualquer hora pode arrancar. O remédio preparado na lua ruim fica ruim, não faz efeito, por causa da ciência, tudo quanto é tem que ter ciência. A pessoa que não tem ciência vive mais mal. Deus deixou para dá tudo certo, né?

ENTREVISTA D. GUARDINA GOMES DE OLIVEIRA


ENTREVISTA D. GUARDINA GOMES DE OLIVEIRA
Idade: 56 anos
Aldeia: Barra do Sumaré



Antigamente a gente comia era comida de milho, a gente pesava no pelação, fazia angu, farinha, beiju, bolo... Essa era a nossa comida de primeiro. A comida era canjica graúda, que nós, de primeiro, que nós chamava de canjicona, agora é canjica graúda que os povos trata, que a canjica miúda que pisava o milho, tirava a canjica para comer, esse que era o arroz que nós achava, nem conhecia o arroz.
Quando tinha o feijão comia, quando não tinha, a gente comia o beiju, cuscuz, comia o que o povo tratava de Mané, mane era o bolo.
A roupa, a finada mãe, no tempo dela, tecia, ela fiava na roda e tecia o pano. Aí os fio ia vestir. O que hoje o povo faz de pano, antes era de linho a blusa que ela fazia pra vestir. Nós caía dentro dos vestidão, saía rastando pra festa, o sapato era o pé no chão. O sapato que nós achava era cinco dedo no chão, todo mundo conhecia os rastros dos outros, só por rastro conhecia.
A cama era de vara, cortava as varas e botava os ganchos de um lado e de outro, aí era a caminha. A esteira, fazia de palha de banana. Hoje ninguém conhece isso mais, não é? Fazia de palha de banana pra dormir. Quem tivesse a coberta que tá que tecia embrulhava, quem não tivesse tinha vez que jogava aqueles pano em riba, a mãe tirava a saia, não dava pra tudo. Os outros embrulhava era com os paninhos pr’ali e cortava assim mesmo.
O sabão, ninguém nem conhecia sabão de comércio. Cortava os paus, fazia a cinza, botava fogo e ia lá no mato pegar pinhão, tingui, e fazia o sabão na panela. Fazia a estiladeira, ressava a cinza e fazia o sabão pra lavar roupa. Esse que era o sabão de nóis de primeiro, que era desse jeito.
Num tinha médico, então quando a pessoa doecia, saía caçando pau nos matos, rancando raiz daquelas árvore que dava pra gente ver que as pessoa melhorava, passava a febre, passava a dor, aí se a gente via que não tinha jeito, aí não tinha médico, Deus levava. Assim que era.
Eu mesma tive 19 fi’i. No tempo, eu tive 16 e mais 3 fora do tempo. Por quê? Porque num tinha médico mó de cuidá, eu ia era nos raizeiros, dava um remedinho, uma hora miorava, outra hora não miorava. Deus repartiu, eu fiquei com oito, ele levou oito, o que eu ia de fazer?

  • PARA COMPRAR AS COISAS, COMPRAVA FORA, OU ERA AQUI MESMO?
Comprava aqui mesmo, porque nem ninguém sabia onde era o comércio. Compra aquele mais recursadinho que morava aqui na mata, nós comprava na mão do finado Vicente, que morava aí no Sapé, nós comprava trabalhando, o homem faltava morrer de trabalhar, chovendo ou sem chover, era trabalho. Tinha vez que trabalhava a mó de trazer na mão um pratinho de coisa, um quilin na mão, assim um dia de serviço, tinha vez que trazia um pratinho de farinha, uma banda de rapadura, uma rapadura num dia de serviço! Os filho tinha vez que tava tudo aí com fome. Tinha vez que meus filho, quando não tinha milho pra quebrar o jejum, ficava aí, “Mãe dá um taquim de beiju! Cadê o beiju?!” “Pois se não tem mio, seu pai está trabalhando ainda, vai chegar de noite”. Quando o pai chegava dava graças a Deus mó de trazer ao meno a rapadura pra botar na mão dos fios, cada um, um pedacim de rapadura pra comer chorando, a barriga só a casquinha. Eu digo que hoje o povo tá tudo de barriga cheia: “eu não quero, não tem molho por riba, não tem carne” eu fico assim, assuntano. Tinha vez que dava de mamá criança, o peito estava seco, jogava o peito parecia que estava puxando o coração da gente, não tinha leite, aquela ança que dava na gente. De premero era um sofrimento. Hoje está bom, os povo acha que tá ruim. E tem gente que, a gente olha assim, ave Maria, é uma pança, a gente mesmo está vendo como era e como ficou. De premeira era coisa viu!

  • COMO COMEÇOU OS BRANCOS AQUI DENTRO?
Começou porque nós era os índios e o governador era o finado Rodrigues, ele foi abatendo, abatendo e foi tomando conta devagar até tá dando pra entrar aqui dentro da área, mas o pedido dele foi para não deixar entrar, mas tem o dizer que o governador, Deus levou, e ficou mais fraco.
Os premeiro fazendeiro, o premerinho, foi Juca Martinzão. Foi o premeiro. Juca comprou o terreno ali dos lado dos Sales e vendeu assim de lá daquela gratona lá ó! Certo no brejinho pra cá. E não podia porque aí era o nosso terreno. Aí quem combateu foi o finado Rodrigue e compadre João também combateu, aí deu briga e deu morte. Eles pegou e jogou um tanto de gado e foi rebentando tudo o que a gente tinha, e aí depois Iaiá ajudou, Iaiá a onça, a Iaiá Cabocla nossa. Ela deu uma sangrada num bocado aí, bebeu o sangue e largou só um montão de folha. Matou um bocado, eles assobiou ô e saiu e cascou debaixo, saiu de repente, pegou o gado e saiu tudo, porque aqui, se a pessoa não souber, ela acontece mesmo é! E depois aí foi virando essa briga entre os povos, uns entraram e acompanharam, outros não acompanharam. Depois acabou dessa forma. Os posseiros eram os mais ricos e os remanescentes eram os mais pobres.

  • A SENHORA SEMPRE MOROU AQUI? E OS SEUS PAIS?
Só aqui. Eu mudo de lugar na mesma aldeia. Nunca mudei de aldeia não. Meus pais são da mesma aldeia. A mãe de mãe foi pegada de cachorro, acho que morava no rumo de Riachão, aí eles vieram pra cá. A vó dela pegou no mato de cachorro, disse que botou no cavalo, que ela rasgou assim na garupa do cavalo, rancou um tampo, só o osso, era índia braba.

  • E AS ROÇAS, COMO ERA O JEITO DE PLANTAR E POR AS ROÇAS?
Antigamente era de madeira, punhava as roça com a mesma madeira, cercava pra plantar, ia derrubando assim os paus, uns por riba dos outros para dar faxina. Plantava as mesmas coisas de hoje, abóbora, milho, feijão, mamona, arroz, algodão. Agora a gente planta, mas não dá mais porque a chuva encurtou, quase nem um milho está dando mais, no lugar baixo sai, mas nos alto não sai.

  • A SENHORA SABE DE MITOS COMO O DA IAIÁ CABOCLA?
Eu só sei dizê que uma vez a finada (minha mãe) encomendava nóis para não agravá a onça. A onça cabocra que é a Iaiá nossa. Porque se agravá ela, ela aparece pra gente e ela bate. Bate, dá uma surra. Dizem que ela é uma onça maiada, amarela. Um cara lá no Brejo disse que não tinha medo dela não, ela veio de noite e meteu o chicote, quase mata o menino. Ele veio e encomendô nóis.
Dizem que todo dia ela vai numa área e vai na outra, onde tem as aldeia ela vai, vai encantada. A aldeia também, quando ela chega na aldeia, nós sabe, ela dá um assubio, bem forte, né? Você ainda não escuto, não? Agora ficô mais difícil, depois que o finado (Rodrigão) morreu, ficô mais difícil um pouco. Quando ela chega aqui na área nossa, nós sabe, ela assubia aquele assubio bem altão, FIUIIUUU.......

  • AS PESSOAS DE ANTIGAMENTE TINHA DOCUMENTO?
Não, era tudo sem documento. Até hoje, tem alguns que não tem. Eu mesma casei no padre, agora que estou tirando documento do civil. Todo mundo casava só no padre, desde os antigo. Depois, com o engano de negócio de civil aí, eu fui me apusentá. O finado Rodrigo disse que não precisava não, aí eu consegui assim mesmo casada no padre. Nunca deu problema não. Agora que eu consegui, depois dos dentes tudo caído. (risada)

  • E SOBRE A CRIÇÃO? COMO CRIAVA E QUE TIPO?
Criava galinha, porco; gado nóis não criava, começô criá agora, mas num passa de duas cabecinha. (risada). Não existia cercado, criava só nos mato. Cada aquele criava solto nos mato. Só ponhava a rocinha, prantava e pronto. No lugá que prantava, prantava dois, treis, quatro ano. Hoje pranta um ano e já não qué mais. Por isso que a mata acabô. A mata pranta um bocado de ano num lugar sozim. É. Não prantava capim e nem tinha criação.

  • E AS CASAS, QUAIS OS TIPOS DE CASAS?
As casas era de vara. Ponhava um bolo de barro nos buraco das vara. Quando passava dois anos, os buraco estava enxergano lá naquele mundo. Os buraco era os pequeno (risada). As porta era as vara mesmo que era as porta. Media as vara nas porta, tapava as porta de pau. A coberta era casca do mato. Hoje o povo derrubou as casca tudo. Aí deu pra fazer telha e por de riba. Era de casca. Nós mesmo tinha era de casca de pau do mato. Não é de qualquer pau não. É pordaco. Limpava ela, rapava ela, aquela casca de riba pra ficar de duas. Abria o buraco no meio e marrava as vara pra não arribar. Ponhava uns pau por cima pr’o vento não carregar. Mas aturava tanto! Quando acabou esses pau, a gente assombrava de por telha em cima com medo de cair de riba.
De primeiro, era ruim. Você tinha uma criança, caçava um pano pra enrolar, não achava. Tinha veiz que vestia uma roupa aqui e tinha que ir pra fonte lavar correndo pra vesti. Hoje tem roupa: “Eu não quero essa não!”, “Eu quero é outra nova!” Eu é que num vou bater folgado. A gente sofreu mesmo...

  • AS ROUPAS, ERA A GENTE MESMO QUE FAZIA?
Roupa e chinelo. Era todo mundo de pé no chão. As mulher fartava morrer de dor nas pernas, de dieta e de pé no chão. Não tinha nenhum tipo de chinelo. Algum que tinha, uns tamanco de pau, era um chinelo de taba, e os homens aqueles de couro de gado. Pegava e cortava assim, certinho, cortava e furava, botava umas correinhas e saía piriri-toc, piriri-toc (risada). Ainda era de couro cru de gado e os outros que não sabia, ficava de pé no chão.

  • AS COISAS DA ROÇA, LEVAVA PARA FORA PARA VENDER?
Não, era tudo pra casa, pra comer. Quando matava um porco, era espiticar (dividir) pr’ os vizinho. E quando os vizinho matava, dava também. Hoje, que acabou isso (risada).

  • PARA VIAJAR, TINHA ALGUMA COISA DA NATUREZA QUE MARCAVA A HORA?
Era pela natureza a hora. Era o galo (risada). A hora que o galo cantava era uma hora. E de dia, a gente marcava no sol. Hora que a gente pisava na cabeça da gente, era meio dia (risada). A chuva de primeiro, chuvia muito. Tinha as simpatias, ponhava nas fogueiras aí, a gente já sabia. Quando estava no mês de junho, tinha a marcação de Santo Antônio primeiro. A profecia de Santo Antônio passava pra São João e São João entregava pra São Pedro. Aí a gente pegava naqueles mês. São João marcava o mês de outubro, novembro, dezembro, janeiro e fevereiro. Aí São João entrega pra São Pedro.

  • NOS TRÊS FERIADOS FAZIAM AS MESMAS OBSERVAÇÕES?
A marcação é tudo assim. Aí, a gente vai olhando pelas nuvens. A marcação do mês de outubro, as nuve fica carregada chamando no chão do chovedor (no horizonte). O dia do dia primeiro, aí vai pra frente, os outro santo. Se tiver nivuado, chove. E se não tiver, não chove no meis. Esse ano mermo, foi marcá mermo foi no final d’água. No fim d’água vai ser mais mió. Assim mermo, vai ser chuva raleada. Março, abril e maio marcou mais chuva. De primeiro, o povo já tinha a marcação, depois entrou num mundo novo. O povo que põe a marcação, mas o mundo é mesmo que Deus marcou, e disse que tem o mundo novo, aí ficou diferente. Deus disse agora que o mês que era de chuva, diz que é seca. Aí vira as água. E as água vira seca. Agora ninguém vai saber como é que vai ser. Diferençou mermo. Cadê? Muitas coisas a gente já está vendo mermo, está certim.

  • AQUI NA ALDEIA A GENTE TEM UMA PARTE DE NEGRO E UMA PARTE DE ÍNDIO. A SENHORA SABE COMO É QUE FOI ESSA MISTURA? COMO É QUE OS NEGROS CHEGARAM AQUI?
Ele entrou dentro da área e foi casando uns com os outro e foi virando uma mistura de negro. Tanto que tem um bando de nego e tem caboclo. E virou uma mistura, uns tá apurado, os outros já num tá.

  • DESDE ANTIGAMENTE QUE ESSE NOME ERA XACRIABÁ MESMO OU TINHA OUTRO NOME?
Uai, esse é o primeiro nome de nós. Nós tratava era de FUNAIA, aí inventou esse outro nome. Tem uns que fala que era Gamela (o nome anterior ao nome Xacriabá, esse último dado pela FUNAI), mas eu conheço gamela era de secar fubá, ou prato pra gente comer. Prato de barro, panela de barro, mãe fazia panela de barro, prato, xirquinha pra nós tomar chá, café, tudo ela fazia.

  • NÃO TINHA NADA DE PLÁSTICO E DE ALUMÍNIO?
Não, não tinha não. Nós só comia nessas coisas assim de madeira e de barro. E a gente gostava, iihh! (risada)

  • ANTIGAMENTE FAZIA FARINHA DA RAIZ DE UMBU?
Quando a gente tava com fome, que não tinha nadinha, só via desgravatando os pé de umbu pra fazer farinha. Mandioca, pai relava. A mandioca tava cheinha d’água. Espremia aquele trem fofim, fazia aquele grolozão. Não saía farinha não. Era o grolão, o bolo desse tamanho, já era pra comer. Botava no prato, se tivesse feijão, ponhava. Se não tivesse, comia o bolão com sal (risada).Êta Deus! A gente de primeiro sofria muito um bocado.

  • NESSE TEMPO A COMIDA ERA ASSIM E OS MENINOS PEQUENINHOS, ERA SÓ NO PEITO?
Era no peito e fazia mingau de fubá de milho. Só dava só disenteria, menina (risada). A metade dos menino meu, não vou mentir, só dava disenteria e dilatação, sabe? A gente dava remédio mais remédio, tinha veiz que dilatação, desnutrido só de fome. A morerinha (moleira) chega a um pilãozinho fundo de fraqueza. As veiz, o leite da mãe não dava. O dia que a gente comia qualquer coisinha, dava um leitinho, o dia que não comia, oh, meu Pai! Pobre de eu, sofria um bocado. Ainda mais eu que tinha os peito doente. Minha irmã quase não dava leite não. Comia só o mingauzinho. Com quatro méis, já machucava aquela comidinha pra botar pro menino comer. O menino pelejava fazendo vampim (vômito), pois era pra engolir (risada). Hoje o povo anda criando as criança tudo bem criada, né?

  • E O CAFÉ, COMO ERA PARA FAZER?
O café, ia lá e cortava a cana tá tá tá. Com o pau, trucia na vazia, cabava, estemperava, botava mais água, fazia o café e bebia. Hoje, cadê? Ninguém faz mais isso.

  • MAS ERA CAFÉ NATURAL?
Era de verdade! Nós torrava o mio, misturava e pisava o mio junto com o café. E tinha o café fedegoso. Também tinha o fedegosão, que era aquele café beirão. Mãe prantava minha fia. Torrava aqueles cardeirão, pisava pra fazer este café. Eu mermo que não gostava. Fedô (risada)! O fedegoso, quase não gostava não. A mãe do finado Zé Caetano que torrava o café, de noite. Com vinte e quatro hora, a muié ainda não bebia água. Minha irmã ainda saía rebuçada, lá pro meio dia. Por isso que eles aturou mais. O fiapo do cabelo do ouvido quase dava uns dois dedo. Foi crescendo, êta meu Deus do céu (risada)! Tem tanto coisa pra gente pensar que a gente esquece!

ENTREVISTA COM DONA ADELÁIDE

ENTREVISTA COM DONA ADELÁIDE
DATA 08\08\08
IDADE: 78 ANOS
ALDEIA: ITACARAMBIZINHO
...
De primero, nós usava prato de pau, outra hora era umas foia e esculatera de barro. As panela furava tudo, oh menina. Mãe comprava umas panelona assi bem grande pra cozinhar de comer pr’os fi’i comer. Mesmo era só dois. E ela enchia essa panela cheiinha de comida. Foi um dia, ela botou e tocou carne nessa panela e tocou arroz dessa carne e a panela furou o fundo! Êta, que nós já rimos... Agora deixa o que está no casco da panela e vamos comer o que tá no chão. Pois é, tem um bando de coisa...


  • A MÃE DA SENHORA É NASCIDA NESTA MESMA ALDEIA DA SENHORA?
Minha mãe é nascida no Riachinho e eu também sou nascida lá. É tudo de lá, meu pai também e minha mãe de criação, foi nascido tudo por lá. Mas essa é a mãe de criação. Se você quer saber é da mãe mermo, da mãe da gente, é tudo de lá.

  • E COMO ERA A COMIDA DOS ANTIGOS?
Pois é, é farinha de raiz de imbu. Essa mandioca que o povo trata de mandioca de onça, mãe (mãe adotiva) rancava aquele tanto e é o mermo que vê mandioca de castelão. Relava, mudava de cor. Ela é meia amarela né? Relava, relava, tirava aquela água, assentava aquela tapioquinha e ali misturava aquela colinha. Colinha besta. E fazia aquele beijuzinho e nós comia. Relava coco de tucum, mãe partia aquele tanto relando o coco de tucum e fazia farinha pra nós comer.

  • ESSA MANDIOCA QUE VOCÊ FAZIA A FARINHA ERA MANDIOCA NATIVA?
É nativa. Até hoje ainda tem ela. Lá no Sô Nininho tinha um pezão. Eu não sei se cabô. Mas aqui na mata tudo tem ela. A raiz de imbu, mãe rancava aquela raízão, aquela batatona, descascava e relava pra nós comer beiju assim. Ah! Nós comia era jatobá, coco, outras capoeira. É. Nós comia mais coisa, nós comia muita coisa, só o que eu sei. E o que eu não sei? Que nós era tudo pequeno, né? Cabeça de coco dos gerais, coco cabeçudo, nós comia muito! Assim era a comida dos povo antigo.
Outra coisa é a taioba, que até hoje a gente come. E inhame. O ponto é achar. Eu mermo, se eu achar, eu como. Mas parece que esse inhame do mato cabo, e eu não sei como é que ele cabô. É uma comida boa, o inhame enxuga. Ele é bom porque ele não coça. Ele é nativo, de toda a vida nós come. Pipoca de mi’o torrado, nós pisava e comia, torrava o mi’o. Eu como até hoje.

  • E NÃO COMPRAVA COMIDA?
Não, não tinha nada aqui não, só tinha no comércio, que era quem pudesse ir lá comprar. Quem pudesse ir lá comprar, comia, e quem não pudesse não comia. Não tinha cavalo, não tinha jegue, não tinha nada. O jegue e o cavalo era esses aqui ó (mostrava as pernas dela). Quem podia ir lá buscar, buscava, quem não podia...

  • PLANTAVA ROÇA COMO HOJE OU ERA DIFERENTE?
Plantava roça que nem hoje, nunca deferenciou. O prantá da roça era um sozim. Pranta mi’i, feijão, abroba, muranga, melancia. Só que era mió, que dava bastante. Ocê trabaiava mais pouco e coía um bando. Óia, de primeiro, cê prantava um prato de feijão e coía um saco. E aconteceu comigo. Depois que eu cheguei aqui mais Sinhá, nós prantamo uma roça. No primeiro ano, ela prantou um prato, eu prantei outro, ela tirou um saco e eu tirei outro. Tá de pouco tempo que acabou. Agora nós bate prantando, mas não cóie nada dessa vida, mais é trabaio, né? Se coiê pra provar, ainda dá graças a Deus. De primeiro, o tempo era bom. Ocê matava um gado, a carne era boa. Hoje, ocê mata um gado, ocê come que é o jeito. Cê matava um porco, cê não comia osso do porco, ocê só tirava a carne por riba (risada).

  • E CRIAVA MUITO?
Criava. De primero, criava bastante coisa, porque não tinha esse negócio de cada um ter o seu. Tudo era vasto. Tudo junto. Era vasto, gado solto pro mato. O dia que queria dar o sal ao gado, ia e chegava e jogava o sal, e tudo comia. Não tinha isso de dizer “esse é meu e aquele é seu”, não, não tinha isso não, tudo era junto. O lugar onde você interessava, você fazia a casa e botava a roça. Não tinha esse negócio e dizer que esse é de fulano. Você ia trabaiá onde interessasse. Hoje não. Tá ruim.

  • DE PRIMEIRO, TINHA BRIGA COM OS BRANCOS?
Não. Não tinha esse negócio de branco aqui não. Não tinha branco aqui dentro não. As pessoa era pouca. Pro’cê ver, na casa do vizinho, ocê saía hoje, ocê ainda dormia no caminho. Pro’cê ver, a chegar na casa dele, ocê ainda dormia de riba do pau, pra onça num te comer. Era assim, era longe, não tinha ninguém não. Não tinha mistura com branco. Os branco não tinha misturado com os índio, ninguém nem sabia o que era negócio de branco. Tá sabendo agora. De primeiro, era tão bom que num tinha mistura. Eu vim conhecer essa mistura depois que eu vim pro Brejo. Aqui não tinha mistura não, os índios eram separado. É tanto que o finado Gerome e o finado Pedro era caminhador pra Brasília. Finado Gerome, quando ia pra Brasília, ele ia lá pra casa.
“É meus fio, eu vou passar a noite mais ocês”.
“Ocê veio, Tio Gerome ?!”
“Vim! Ah, vou lá pra Brasília, eu vou resolver um negócio lá pra nós. Que o negócio está querendo apertar pra nós. O povo tá querendo tomar as terra nossa. Os branco quer entrar meus fio.”
“Nossa! Mas os branco vão entrar na terra nossa?”
“Vamos arrastar é a barriga no chão pra mó de branco não entrar nas terras, porque se eles entrar aqui, as correntes vai arrastar! Mas com fé em Deus, as corrente não vai arrastar nas terra de índio não. Se eu morrer, Pedro fica no meu lugar.”

Você conheceu o véio Pedro? Você conheceu ele. Pedro aí do Sapé. Pedro de Gerome. Ele morava bem ali, onde o Chicão está morando hoje. Cê conheceu Morrão? Morador daquele Gerais lá, num era? Moço! De primeiro que era bom! Se fosse que nem de primeiro: “fulano vamos fazer uma casa pra acolá?” Lá mesmo fulano faz a casa e bota a roça. Hoje é uma encrenca. É uma maior encrenca que tá. Tá uma encrenca danada. Ocê não pode, nem pra tirar um pau na terra do outro, não pode tirar. Porque se tirar, você tem que pedir o dono. Se o dono deu, bom, se não deu... Se precisar, se não precisar, cada um tem o seu. Ou ruim ou bom, mas tem. De primeiro é que era bom. Era bom, mas era bom mermo! Que não tinha essa encrenca assim de matação de gente não.
De jeito nenhum. Nem briga não tinha. Eu lembro que nem briga não tinha. Óia, eu vim conhecer esse trem foi uma vez que o finado Miguel morava em Varge Grande. Aconteceu isso. Isso aí eu lembro bem. Que o finado Miguel foi numa festa de Santa Cruz lá no Cabano e, de lá pra cá, ele veio mais o compadre dele, mais o Antônio de Josia, que morava aí nas Caraíbas, e o Antônio do outro lá, esqueci o nome do home. Foi ataiá no caminho que já vinha embora, aí o Miguel foi falou assim: “Cês tá aí conversando, deixa eu ir embora, eu tô com sono, eu vou-me embora”. Aí, ele olhou pra trás: “Vão bora companheiro!” Que ele olhou, só viu faca clareando. Disse: “Meu Pai do Céu! Que é que eu vou fazer? Será que eu vou voltar lá?” Aí ele voltou lá. Tava um de lá, outro de cá, todos dois quem nem galo. Aí ele foi atravessando no meio e disse: “Me atende compadre, me atende compadre!” Quando ele falou assim, o compadre tacô a faca nele. Aí ele caiu do burro e foi pro brejo. Foi a primeira vez que eu vi isso. Nunca tinha visto. Bom aí vimos embora aqui pro Brejo. Inteirô duas com aquele menino, um menino besta que tinha aí do véio Pedro cachiado. Pra ele mi era besta, todo mundo dezia que ele era besta, pegaram o pobre do menino e mataram. Nos já morava no Brejo, eu digo: Ué! E já viu matá gente?! Gente mata é bicho, não é gente não, daí o povo seguiu. Ô! Agora, porquê? Porque o povo rendeu demais, e tá tudo muito locéia, e tá desobidiente, tá muito desobidiente.
Mas de primeiro era bom, um fazia uma festa e saia avisano ocê, aí agora quand’ocê chegava naquela festa, ô! maió alegria, ocê comia, tomava café a noite inteirinha, i i i! Esse povo dançano, dançava um lundu, era lundu, não tinha essa coisa não de rasta pé não, era lundu, era um samba, aí assi a noite inteirinha, só tomano café e comeno o que tinha. Ali agora o sol saía e ocê tombém até que isquecia. Era aquela harmonia, até uma hora dessa, o povo tava sambano, que era bom. Hoje a gente tem medo até de fazer uma brincadeira, é! Ah! Tempo bom! Ainda arcansei uma beradinha ainda, arcansei uma beradinha do bom, e do ruim. (risada). Mas Deus ajudou que eu passei, Deus que não deixa, meu pai, vim esse tempo mais não que eu passei, passei muita necessidade, é! Passei muita necessidade.

  • E NAQUELE TEMPO TINHA APOSENTADO, GENTE QUE GANHAVA SALÁRIO?
Não, não tinha nada, de jeito nenhum! Não tinha nada.           

  • E QUEM IA COMPRAR NA CIDADE, COMO COMPRAVA?
Comprava trabaiano na roça, quando ganhava as coisinhas; pegava e vendia e ia comprá lá. Plantava arroiz. Nós prantava muito arroiz lá nas lagoas; coia bastante arroiz, jogava arroiz no pilão, pisava aquele arroiz levava pro comércio.

  • CHEGANDO LÁ, VENDIA A DINHEIRO OU TROCAVA?
Vendia é a troco, trocava a troco de café, sali, outras coisinhas se tivesse precisão. Quem tivesse precisão ia panhá lá, toicin nóis levava era de cá. Hoje nóis vamo panhá lá. Tá veno como que as coisa é! Mudou muita coisa. Era assim, era no braço, o pobrizin dos veín só fartava era morrê minha fia, de tanto trabaiá, só que tinha uma coisa, quando aquele vein chegava a arriá que não aguentava mais serviço já tinha gozado, comia bom, né! Criava porco, criava bastante coisa, cabra, carneiro, as porta da varanda dos pobrezin vivia aquele bando de coisa, porco, tudo aí pus chiqueiro, era assim. Hoje tomo comeno tudo do comprá, panhano no comércio e comprano. Hoje tá bom. Ô! Lá pra baixo tem venda, lá de junto d’ocê tem uma venda, aqui de junto de mim tem outra venda, vão meu fio, vai compra lá, de repentinho o menino correu e comprou lá. De primeiro não tinha isso não minha fia. Ninguém achava menino para panhá não, porque era no Itacarambi, Januária e na Manga, era assim, e era se guentasse ir, se não guentasse, ficava aí memo, era assim, desse jeito.

  • E TINHA DOCUMENTO PESSOAL?
Não, não tinha documento não, era tudo aí como uns bichinho, eu memo não tinha documento não, eu vim pegá documento depois que casei. Ninguém sabia o que era isso de documento. Pai dos menino não tirava data de menino (data de nascimento) era como saía, uns bichin aí, uns pinto do ovo aí, não tinha nada disso não. Hoje não; até os bichim tá registrano. Minha gata memo é registrada, tem documento (risada). Não é memo! Hoje até cachorro tem documento!

  • A SENHORA SABE CONTAR A HISTÓRIA DO DOCUMENTO DA TERRA, DA DOAÇÃO DA TERRA?
Ô minha fia, isso aí já não conto com a cabeça não.
[Tem uma história de que foi Dom Pedro que deu a terra, a Princesa Izabel.]
Isso aí não, aí não sei; aí é outras pessoa. Seu pai sabe. Já sobre isso aí eu não sei não. Do que que serve eu falá pro’cê que sei, mais eu não sei, né! As outras coisa tudo eu sei.
Os candinheiro nosso era de barro, nóis enfiava uns pauzim assim na parede, fazia os candinheiro de barro ô, as luiz nossa tudo era assim deferente, era de momona, nóis pisava a momona e tirava o azeite e botava nos candinheirim, fazia o pavi e enchia de azeite e botava lá pra lumiá nóis. Conde não tinha o algodão, enfiava a momona tudo assim no talim e enterrava o pezim no chão para lumia. Nóis sofria, de primeiro não tinha as candeia. Hoje nós tomo é no céu. Hoje tem tudo, o que nóis qué mais! Ah! O povo sofreu foi de primeiro. Eu sofri é quando pagava essa candeinha, conde vinha uma chuva de vento de noite pagava tudo, agora aí, cadê? O vento pagava tudo agora, aí ficava no escuro.
A casa nossa era de paia de capim, não tinha essa teia não, nóis não sabia o que era morá debaixo de casa de teia não. Morava era ni rancho assim ó. Era de enchimento; tinha hora que nem barro não tinha, metia era umas paia, era um paio (risada). Não era casa assim que nem essa não, era um paió memo de pô mi’i. Era assim. Não tinha cama para drumi, nóis deitava... Fazia uma caminha de vara, fazia as esteira e jogava em cima das caminha de vara.
Hoje não, o povo tá tudo com fidarguia, o povo ficou tudo rico. Ninguém vê que tem um drumino numa cama de vara, si um entrá na casa de um e vê um drumino numa cama de vara, só com uma esteira por riba, ô! Vixi,. mas aquele ali é maió inguinorança, é! É maió inguinorança.
Nóis remendava roupa nossa, era todo mundo, não era só nois não. Era todo mundo. As muié remendava as roupa delas, remendava roupa dos home tudo. Nós fiava no fuso ó, assim ô, aquele ali, ia tecer, pra mó de fazer vestido. Eu, depois que cheguei no Brejo, eu vesti um vestidão de algodão, Tonha vestiu outro, o veio vestiu uma camisona e uma camisona de algodão que nóis fiemo tudo no fuso, não tinha roda, nóis fiemo tudo no fuso. Ele ajudava eu a fiá, eu fiava a de urdi, ele fiava, a de tampá, era assim.

  • TINHA DOIS TIPOS DE LINHAS?
É, dois tipo de linha, a de urdi e a de tampá. A de urdi, ela vem pra cá, que é dura, e a de tampa vai pra cá que é mole. Olha que uma linha para guentá o peso de uma pessoa precisa ser forte, ainda bater o pé para tecê. Era bom era na roda, batia o pé até madrugada, aí era bom, mas depois que a roda quebrou, foi tudo pro fuso.
A cama faz como diz o outro. A cama era de tomba-tomba e a coberta era de lambe-lambe. Sabe o que é? É o fogo (risada). E o tomba-tomba, sabe o que que é? É o ramo (risada). Cindia o fogo, aí não tinha esteira, cindia o fogo aí, ia lá quebrava uns ramo, forrava os ramo aí na beira do fogo e deitava, aí agora ficava aí. Ô cosa boa, a quenturinha do fogo! A cama de tomba-tomba e a coberta de lambe-lambe. Sofri muito, minha fia. Não era muito assim não. Hoje não, o povo está é bom. O povo hoje tá tudo é rico. Muitas vezes eu corri de gente, sempre eu falo, eu tenho medo de gente, eu tenho medo de gente, mas sobre os assunto, se eu tiver desprevenida, todo mudo tem, ocê também, não tem? Nóis tudo tem medo, nóis tamo desprevenido, chega uma pessoa e não pode saí, aí tem que corrê. Corri muito. Eu e minha mãe, ficamo dentro de casa uma semana. Meu pai ganhando o dinheiro trabaiano. Olha, coitado, ganhano o dinheiro para vestir nóis. Ocê sabe como ele fazia? Meu pai saía cedin, no marelo do dia, saía e enchia duas cabaça d’água, botava aí pra nóis:
– Aqui pr’ocês ir fazeno a comida enquanto eu chego, eu venho cedo pra ir na fonte panhá água.
Todo dia porque nóis não podia ir na fonte pegá água, porque estava sem roupa (risada). Era uma varedona e vaqueiro só vivia encontrano, pegano gado no campo, e nóis ficava dentro de casa escondida, com as porta tudo fechada; era eu mais aquela Julinha lá da Rancharia, ela ficava lá mais nóis. Quando interava uma semana, já sabia quem ia na Januária; “meu padrin Cesáro vai pra Januária, vou pedi ele pra trazê as roupa pr’oceis”. Vixi, quando ele falava assim, nóis ficava sartano de alegre. “Que dia que a roupa chega??”(risada) Não podia ir no meio de gente para pedi pra cortá a roupa. Mãe toda vida tinha a cabeça ruda, e agora como é que faz mó de cortá essas roupa pra nóis. Pai falava: “eu corto pr’oceis, eu corto uma camisa e a saia”. Eu digo: “eu memo corto o meu”. Pai: “menina, menina ocê vai bota esse pano perdido”. “Eu não, pois eu já sei cortá”. Eu metia a mão no meu, cortava e costurava e pai cortava a camisa e a saia dela. Aí nóis ficava alegre. Agora nóis vamo pra fonte, vamo tudo pra fonte banha. Êta, coisa boa! De primeiro era assim.

Formatura do Ensino Médio 2010

Essas fotos foram tiradas no dia 28 de dezembro de 2010, na aldeia Riacho dos Buritis.